Mutações genéticas BRCA1/2 e a sua componente hereditária têm também impacto relevante no aumento de risco de vir a desenvolver cancro do pâncreas6,8,12
“Em estádios iniciais, o cancro do pâncreas pode ser silencioso, não causando qualquer sinal ou sintoma, o que dificulta o seu diagnóstico precoce.” (1). A garantia é dada por Maria Teresa Neves, oncologista na Unidade Local de Saúde (ULS) de Lisboa Ocidental, a propósito do Dia Mundial do Cancro do Pâncreas, e que deixa o alerta: “em mais de 60% dos casos é diagnosticado quando já existem metástases, ou seja, quando já existem outros órgãos afetados. Além disso, apesar de terem existido alguns avanços nos últimos anos, ainda temos poucas escolhas eficazes em termos de tratamento e uma elevada taxa de recidiva. A combinação destes fatores leva a menor sobrevivência quando comparada com a taxa de sobrevivência em outros tipos de cancro.” (1, 9, 10, 11)
Uma doença em que, acrescenta a especialista, “em 5-10% dos casos existem alterações hereditárias e normalmente história familiar associada” (8). É para esta percentagem que chama a atenção o projeto saBeR mais ContA, uma iniciativa da AstraZeneca que dá a conhecer as mutações genéticas BRCA associadas ao cancro e sensibiliza para a componente hereditária.
Considerada, como já foi referido, uma doença silenciosa, pelo menos numa fase inicial, o diagnóstico precoce do cancro do pâncreas é sempre um desafio, mas ainda assim existem alguns sintomas e sinais a que todos devem estar atentos: “dor abdominal, perda de peso inexplicável, icterícia, diagnóstico de diabetes mellitus de novo ou agravamento, se já existente, e alterações da cor das fezes ou urina” (1, 2), refere a médica, que salienta que, apesar de “normalmente associados a condições benignas, se persistentes devem motivar avaliação médica” (2, 3).
Ainda assim, Maria Teresa Neves reforça que “a maioria dos casos de cancro do pâncreas são esporádicos, sendo o principal fator de risco identificado a idade avançada, com pico de incidência entre os 65 e 69 anos nos homens e entre os 75 e 79 anos nas mulheres”. (7) Consumo de tabaco, obesidade, diabetes mellitus, pancreatite crónica, consumo de álcool e maus hábitos alimentares são outros dos fatores já identificados, assim como as mutações BRCA (4).
Atualmente, sabe-se que existem alguns genes com a função de proteger o corpo humano do desenvolvimento de cancro, tais como os genes BRCA1 e BRCA2. Ao contrário do que se possa pensar, não são as mutações genéticas nestes dois genes que provocam o cancro, mas sim a acumulação de danos no ADN não reparados nas células, transformando-as em células tumorais (5).
O risco de desenvolver cancro do pâncreas para portadores desta mutação nos genes BRCA1 ou BRCA 2 situa-se entre 1 e 4 % para BRCA1 e 3 a 5 % para BRCA 2, o que corresponde a um risco duas a três vezes superior (BRCA1) e três a seis vezes superior (BRCA2) do que o da população geral. (6)
“Os estudos genéticos têm-se revelado cada vez mais importantes na orientação e tratamento de doentes com cancro do pâncreas (12). De acordo com as recomendações atuais, todos os doentes diagnosticados com cancro pancreático têm indicação para realizar teste por painel multigénico baseado em sequenciação de nova geração (NGS), que inclua os genes BRCA1 e BRCA2, idealmente no momento do diagnóstico (13, 14). Para os pacientes com antecedentes familiares de cancro do pâncreas ou de outros cancros relacionados (como mama, ovário e próstata), esta análise assume uma importância ainda maior (15), pois há uma maior probabilidade de identificar variantes genéticas clinicamente significativas (patogénicas ou provavelmente patogénicas). Estas variantes são detetadas em até 8% dos casos, e o seu conhecimento ajuda a orientar as estratégias terapêuticas (12). Por exemplo, os portadores de variantes germinativas nos genes BRCA1/2, dois genes supressores tumorais envolvidos na reparação do DNA, apresentam uma resposta mais favorável a certos agentes de quimioterapia e são candidatos ao tratamento com inibidores da PARP (poli ADP-ribose polimerase) (12). Adicionalmente, a identificação de uma variante germinativa clinicamente relevante permite avaliar o risco do doente para outros tipos de cancro e possibilita a identificação de familiares em risco, que podem igualmente beneficiar de estratégias de vigilância e prevenção (14) ” explica ainda a Dra. Rita Quental, geneticista clínica da unidade local de saúde (ULS) de São José
Referências:
- Li J, et al. (2022). Recent estimates and predictions of 5-year survival rate in patients with pancreatic cancer: A model-based period analysis. Frontiers in Medicine; 8:9:1049136.
- American Cancer Society:Signs and Symptoms of Pancreatic Cancer. Disponível em https://www.cancer.org/cancer/types/pancreatic-cancer/detection-diagnosis-staging/signs-and-symptoms.html. Acedido em novembro de 2024
- ESMO Patient Guide Series based on the ESMO Clinical Practice Guidelines: Pancreatic Cancer.. Portal da European Society for Medical Oncology. Suíça: ESMO 2018. Disponível em https://www.esmo.org/content/download/6625/115171/1/EN-Pancreatic-Cancer-Guide-for-Patients.pdf. Acedido em novembro de 2024
- Rawla P, et al. (2019). Epidemiology of Pancreatic Cancer: global trends, etiology and risk factors. World Journal of Oncology; 10(1): 10–27.
- The Royal Marsden NHS Foundation Trust. A beginner’s guide to BRCA1 and BRCA2. Disponível em https://patientinfolibrary.royalmarsden.nhs.uk/brca1brac2?return-url=https%3A%2F%2Fpatientinfolibrary.royalmarsden.nhs.uk%2Fsearch%3Fkeys%3DBRCA. Acedido em novembro de 2024.
- Li S, et al. (2022). Cancer risks associated with BRCA1 and BRCA2 pathogenic variants. Journal of Clinical Oncology; 40(14): 1529–1541.
- Conroy T, et al. (2023). Pancreatic cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology; 34(11): 987–1002.
- Hereditary Pancreatic Cancers. Disponível em https://www.pancreaticcancer.org.uk/information/family-history-of-pancreatic-cancer/hereditary-pancreatic-cancers/. Acedido em novembro de 2024
- Vincent A, et al. (2011). Pancreatic cancer. The Lancet; 378(9791): 607–620.
- Baek B, Lee Hyunju. (2020). Prediction of survival and recurrence in patients with pancreatic cancer by integrating multi-omics data. Scientific Reports; 10(1):18951
- Chon HY, et al. (2024). Uncovering the clinicopathological features of early recurrence after surgical resection of pancreatic cancer. Scientific Reports; 14(1):2942
- Rosen MN, et al. (2021). BRCA mutated pancreatic cancer: A change is coming. World Journal of Gastroenterology; 27(17): 1943–1958.
- Referenced with permission from the NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology (NCCN Guidelines®) for Pancreatic Adenocarcinoma V3.2024. © National Comprehensive Cancer Network, Inc. 2021. All rights reserved https://www.nccn.org. Acedido em novembro de 2024;
- Guidelines PROGO 2024. Disponível em https://sponcologia.pt/download/202409181505.pdf. Acedido em novembro de 2024
- Referenced with permission from the NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology (NCCN Guidelines®) for Genetic/Familial High-Risk Assessment: Breast, Ovarian, Pancreatic, and Prostate V2.2025. © National Comprehensive Cancer Network, Inc. 2021. All rights reserved https://www.nccn.org. Acedido em novembro de 2024;
Abreviaturas:
BRCA – BReast CAncer gene; gene do cancro da mama
ADN – ácido desoxirribonucleico
PARP – Poli (ADP-Ribose) Polimerase;
NGS – Next Generation Sequencing; Sequenciação de Nova Geração
PT-20017 aprovado em novembro de 2024