Nova técnica recupera parcialmente a função do ovário em casos de menopausa precoce

  • O estudo integra um conjunto de avanços apresentados no maior congresso europeu de medicina reprodutiva, onde se inclui um novo hidrogel desenvolvido para recriar o ambiente do ovário e uma estratégia para aproveitar ovócitos que atualmente são descartados por não completarem a maturação durante a fertilização in vitro.

Uma nova estratégia experimental conseguiu recuperar parcialmente a função de ovários afetados por insuficiência ovárica prematura, condição vulgarmente designada por menopausa precoce. Os resultados apresentados, esta semana, na 42.ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, abrem caminho ao desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para mulheres que atualmente têm opções muito limitadas para preservar ou recuperar a fertilidade.

O estudo, liderado pela Dra. Sonia Herraiz, da Fundação IVI, recorreu a uma combinação de fatores de crescimento derivados de células estaminais para restaurar parcialmente alterações moleculares associadas à insuficiência ovárica prematura. Em modelos experimentais, esta abordagem reduziu alterações relacionadas com o stress celular, o metabolismo e a estrutura do tecido ovárico, melhorou a função do ovário e aumentou significativamente o número de ovócitos obtidos.

Estes resultados reforçam a ideia de que o ambiente molecular do ovário é determinante e, mais importante do que isso, pode ser modulado. A médio prazo, esta estratégia poderá abrir novas alternativas para mulheres com insuficiência ovárica prematura“, explica a Dra. Sonia Herraiz.

Recriar o ambiente natural do ovário

No mesmo congresso, uma equipa coordenada pela Dra. Irene Cervelló, também da Fundação IVI, apresentou um hidrogel capaz de reproduzir, em laboratório, o ambiente natural do ovário humano. Produzido a partir de tecido ovárico tratado e combinado com alginato, o material preserva componentes essenciais, como o colagénio e a laminina, e reproduz tanto a estrutura física como os sinais bioquímicos do ovário.

Esta plataforma tridimensional poderá vir a facilitar o desenvolvimento de novas estratégias para restaurar a fertilidade, sobretudo em mulheres que perderam a função ovárica devido a doenças ou a tratamentos como a quimioterapia.

O grande avanço foi conseguir um equilíbrio entre realismo biológico e viabilidade técnica. Dispor de um ambiente que reproduz o ovário permitirá compreender melhor o seu funcionamento e, no futuro, desenvolver novas estratégias para restaurar a fertilidade“, explica a investigadora.

Aproveitar ovócitos que hoje são descartados e compreender a sua maturação

Um terceiro estudo, liderado pela Dra. Marga Esbert, do IVI Barcelona, analisou um problema frequente na fertilização in vitrocerca de 20% dos ovócitos recolhidos não completam a maturação e acabam por ser descartados. Em mulheres com baixa resposta ovárica, endometriose ou alterações na maturação dos ovócitos, esta percentagem pode ser ainda mais elevada.

Recorrendo a uma tecnologia de sequenciação de ARN de célula única, os investigadores verificaram que estes ovócitos não apresentam alterações genéticas, mas sim alterações relacionadas com o stress oxidativo e com a função das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia necessária ao seu desenvolvimento. A suplementação do meio de cultura com um conjunto de antioxidantes permitiu aproximar o perfil biológico destes ovócitos ao dos que amadurecem naturalmente.

Os ovócitos imaturos não são intrinsecamente defeituosos. Precisam de melhores condições para expressar o seu potencial. Se conseguirmos melhorar a sua qualidade, poderemos aumentar o número de embriões disponíveis e, consequentemente, as probabilidades de gravidez“, sublinha a Dra. Marga Esbert.

Outro dos trabalhos apresentados no congresso que hoje termina em Londres identificou um conjunto de proteínas que poderão desempenhar um papel determinante na maturação dos ovócitos e na correta distribuição dos cromossomas. O estudo coordenado pela Dra. Sofia Nunes, diretora do Laboratório de Fertilização In Vitro do IVI Lisboa, representa mais um passo para compreender porque surgem alterações que comprometem a qualidade dos ovócitos. “Quanto melhor compreendermos os mecanismos que regulam a maturação dos ovócitos, mais perto estaremos de desenvolver estratégias capazes de melhorar a fertilidade feminina“, explica a Dra. Sofia Nunes.

Uma nova abordagem à fertilidade

Em conjunto, estes estudos ilustram uma mudança de paradigma na medicina reprodutiva. Para além de procurar aumentar o número de ovócitos disponíveis, a investigação centra-se cada vez mais em preservar, recuperar ou recriar as condições biológicas que determinam a sua qualidade e viabilidade, abrindo caminho ao desenvolvimento de abordagens mais eficazes para algumas das formas mais complexas de infertilidade.

Estes trabalhos mostram uma evolução importante na forma como olhamos para a fertilidade. O objetivo já não é apenas obter mais ovócitos, mas compreender melhor os mecanismos que determinam a qualidade dos ovócitos e a função do ovário, para desenvolver estratégias capazes de preservar ou recuperar essa qualidade e função. Embora ainda estejamos perante investigações experimentais, estes resultados são promissores”, considera o Dr. Samuel Ribeiro, diretor clínico do IVI Lisboa, ginecologista e especialista em medicina da reprodução.