Investigadores sugerem “modelo híbrido de consulta”

Os doentes dos cuidados de saúde primários afirmam que as teleconsultas por vídeo são mais úteis e satisfatórias, estando associadas a uma menor necessidade de recorrer, a breve trecho, a um médico de família.

Esta é uma das principais conclusões de um estudo inédito realizado por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e publicado no BMC Primary Care.

Os autores do trabalho analisaram mais de 184 mil consultas por vídeo e por telefone registadas numa plataforma de telemedicina portuguesa, no setor privado, entre 2021 e 2023. Destas, 55% foram por vídeo e 45% foram por telefone, correspondendo a 100 mil doentes (34% tiveram mais do que uma consulta). O objetivo foi comparar indicadores de qualidade e reunir evidência sobre a aplicação das duas modalidades.

Nos últimos anos, a telemedicina ganhou relevância devido aos avanços da tecnologia digital, ao maior acesso à internet, à conveniência e à redução das deslocações e de custos, sobretudo em áreas mais remotas, mas faltava perguntar aos doentes qual a sua opinião. E foi precisamente isso que este estudo fez: avaliou a satisfação dos doentes e os resultados clínicos, além de variáveis como o sexo e a idade.

Os resultados indicam que as mulheres recorrem mais às teleconsultas (54% das teleconsultas realizadas por vídeo e 66% das teleconsultas feitas por telefone). A idade mediana é de 37 anos, sendo mais baixa nas consultas por vídeo (31 anos) e mais elevada por telefone (48 anos). Os doentes mais velhos tendem a escolher o telefone, o que terá a ver com a maior dificuldade em lidar com as novas tecnologias e com a falta de internet em casa.

De acordo com Daniel Beirão, primeiro autor do estudo, “a grande maioria das consultas foi percebida como útil para os doentes, sobretudo os que tiveram consultas por vídeo (95% versus 92%)”, o que pode explicar-se pela comunicação não verbal.

O pedido de uma nova consulta no espaço de 24 horas foi menor no caso de consultas por vídeo (4,2%), quando se comparava com o telefone (7,4%). Já o telefone deu acesso mais rápido à consulta e exigiu menos encaminhamentos para avaliação presencial (12,5% versus 14,4%). Apenas 13,4% dos doentes tiveram necessidade de uma avaliação pessoal pelo médico após a teleconsulta.

Estes dados apontam para “a efetividade destas abordagens”, mas sugerem que “nenhuma das modalidades é universalmente superior à outra”, reforçando a necessidade de o Serviço Nacional de Saúde adotar “um modelo híbrido de consulta”. “A pergunta certa não é se devemos escolher vídeo ou telefone, mas qual a melhor modalidade para cada situação”, diz.

O professor da FMUP lembra que, no SNS, “já se faz teleconsulta em larga escala nos cuidados de saúde primários, mas quase toda por telefone e, sobretudo, sem a assumir como tal. São contactos em que se transmite informação clínica, se tomam decisões e se assume responsabilidade médico-legal, muitas vezes sem tempo próprio na agenda e sem registo clínico estruturado equivalente ao de uma consulta presencial. Isso é um problema de segurança e de governação clínica, antes de ser um problema de tecnologia”.

O investigador defende, por isso, que “uma reforma do modelo e a implementação de um modelo híbrido que combine presencial, vídeo e telefone, com critério clínico, agenda própria e registo adequado, podem encurtar esperas e libertar consulta presencial para quem dela mais precisa”.

Deixa, contudo, um alerta: “alargar a oferta e alargar o acesso não são a mesma coisa: sem investimento em literacia digital, corremos o risco de que quem mais beneficiaria da avaliação visual seja justamente quem menos lhe consegue aceder”.

O estudo tem autoria de Daniel Beirão, Carlos Franclim Silva, Bernardo Sousa-Pinto, Ana Luísa Neves e Paulo Santos, da FMUP, e de João Magalhães e Filipe Freitas Pinto, da FMUP e Knok.