“A infertilidade deve ser abordada não apenas na sua vertente física, mas também tendo em conta o impacto emocional que este processo representa”
A infertilidade é frequentemente associada a questões físicas que levam a exames, consultas e tratamentos necessários para alcançar uma gravidez, mas o seu impacto vai muito além da dimensão física. Para muitas mulheres e muitos casais, o diagnóstico de infertilidade e os tratamentos podem desencadear sentimentos de ansiedade, stresse, medo, tristeza, culpa, frustração ou solidão, mais ou menos prolongados no tempo e que implicam uma grande adaptação ao nível da gestão emocional. Caso contrário, podem ter consequências no bem-estar emocional e na relação com os outros.
Em vésperas do Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala a 10 de outubro, a Dra. Filipa Santos, psicóloga clínica do IVI Lisboa e especialista no acompanhamento de pessoas que recorrem a tratamentos de Medicina da Reprodução, alerta para o impacto da dificuldade em engravidar na saúde mental, salientando que é uma dimensão essencial a ter em conta no percurso das mulheres e dos casais que lidam com infertilidade.
“A infertilidade pode ser um acontecimento muito disruptivo e inesperado. Para além do impacto físico dos tratamentos, existe toda uma dimensão emocional que precisa de ser acompanhada e cuidada, para que não se torne num obstáculo”, explica a especialista.
Uma montanha-russa emocional
Quando os meses passam, sem que a gravidez aconteça, é frequente surgir uma sensação de perda de controlo sobre um projeto de vida que, para muitas pessoas, era dado como certo. O diagnóstico de infertilidade pode obrigar a lidar com uma realidade inesperada e com um conjunto de emoções que se intensificam à medida que o processo avança, uma vez que os tratamentos de fertilidade acarretam alguma incerteza, o que naturalmente gera ansiedade e medo.
“É natural que exista ansiedade perante a incerteza, medo relativamente aos resultados ou tristeza perante uma tentativa que não correu como era esperado. O problema surge quando estas emoções começam a ter um impacto significativo nos diferentes níveis pessoal, familiar, social e profissional, e a interferir com o funcionamento diário, com as relações ou com a capacidade de viver outras dimensões da vida”, refere a psicóloga.
A pressão social pode também contribuir para este sofrimento. Perguntas sobre para quando um filho, anúncios de gravidez no círculo próximo ou comentários de familiares e amigos podem ser particularmente difíceis de gerir para quem está a enfrentar dificuldades em engravidar. “Existe ainda uma dimensão social muito importante. Muitas pessoas sentem que têm de justificar constantemente porque ainda não têm filhos. Essa pressão pode alimentar sentimentos de culpa, inadequação ou baixa autoestima”, acrescenta a Dra. Filipa Santos.
Quando a preocupação começa a afetar a vida
Ansiedade e tristeza são respostas compreensíveis perante uma experiência exigente e não significam, por si só, a existência de uma perturbação psicológica. No entanto, é importante estar atento à intensidade, à duração e às dimensões afetadas pelos sintomas. “Devemos valorizar sinais como uma tristeza persistente, dificuldade em sentir prazer nas atividades habituais, ansiedade que interfere com o dia a dia, pensamentos muito negativos, sentimentos de culpa e isolamento ou uma dificuldade crescente em lidar com o presente e com o futuro”, explica.
Segundo a especialista, pedir ajuda não representa uma fraqueza. Pelo contrário, o acompanhamento psicológico pode permitir desenvolver ferramentas para compreender e gerir melhor as emoções ao longo do processo. “Não devemos esperar que a ansiedade ou a tristeza desapareçam por si mesmas. Quando sentimos que já não estamos a conseguir gerir aquilo que estamos a viver, procurar apoio especializado é um sinal de cuidado. Em consulta, ajudamos a compreender e a trabalhar essas emoções desenvolvendo as ferramentas necessárias para as regular. Tudo isso vai ajudar cada pessoa a entender e a cuidar do seu processo individual”, sublinha ainda.
Cuidar da saúde mental também faz parte do tratamento
O acompanhamento psicológico tem em conta as diferentes características das etapas desta jornada, desde o momento do diagnóstico até às diferentes etapas dos tratamentos e à gestão dos resultados. “É importante olhar para a pessoa como um todo e trabalhar em articulação com os restantes profissionais de saúde para que o tratamento tenha em conta não só a dimensão médica, mas também o impacto emocional que todo este processo pode representar”, afirma a Dra. Filipa Santos.
Este acompanhamento pode ajudar a lidar com a incerteza, ajustar expetativas, reduzir pensamentos intrusivos e desenvolver estratégias para enfrentar cada etapa sem antecipar constantemente cenários futuros.
Para a Dra. Filipa Santos, reconhecer o impacto emocional da infertilidade é um primeiro passo para o enfrentar de forma mais saudável. “Cuidar da saúde mental não significa retirar as dificuldades deste percurso, mas criar recursos e fornecer ferramentas para lidar melhor com elas. A infertilidade pode ser uma experiência muito exigente, mas ninguém deve sentir que tem de atravessá-la sozinho. Pedir ajuda, falar sobre aquilo que se sente e encontrar estratégias adequadas para regular as emoções também faz parte do cuidado”, conclui a psicóloga clínica do IVI Lisboa.
Devemos estar atentos aos seguintes sinais:
Dificuldade crescente em lidar com o presente e com o futuro.
Tristeza persistente;
Isolamento;
Ansiedade que interfere nas atividades diárias;
Dificuldade em sentir prazer nas atividades diárias;
Pensamentos negativos recorrentes;
Sentimentos de culpa;