Maria João Amorim e Sara Silva Pereira, investigadoras do Católica Biomedical Research Centre da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, foram distinguidas pela Health Research Call 2026 da Fundação “la Caixa”, um programa de financiamento para projetos de investigação em biomedicina e saúde. Os dois projetos em que participam integram os seis selecionados na área temática das Doenças Infeciosas, entre as 120 candidaturas submetidas. O financiamento terá a duração de três anos.
O projeto que integra a equipa liderada por Maria João Amorim, investigadora do Católica Biomedical Research Centre e docente da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, pretende compreender de que forma a infeção pelo vírus da gripe danifica os cílios respiratórios e avaliar se a sua proteção pode melhorar a evolução clínica das infeções e prevenir a pneumonia bacteriana, uma das principais complicações associadas à gripe. A investigação poderá ainda contribuir para o desenvolvimento e teste de novas estratégias de diagnóstico e tratamento da gripe, bem como de diversas ciliopatias.
Por sua vez, o projeto liderado em Portugal por Sara Silva Pereira, também investigadora do Católica Biomedical Research Centre e docente da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, visa desenvolver uma nova estratégia terapêutica contra a nagana, uma doença parasitária que afeta o gado e outros animais de produção em África e na América do Sul. O objetivo é transformar esta descoberta numa abordagem terapêutica inovadora, potencialmente menos suscetível ao desenvolvimento de resistência aos medicamentos atualmente utilizados no combate à doença.
Proteger a primeira linha de defesa dos pulmões: como o vírus da gripe ataca os cílios das vias respiratórias
A gripe causa centenas de milhares de mortes todos os anos, sendo que muitas destas mortes estão associadas a pneumonias bacterianas que surgem após a infeção viral. No entanto, porque é difícil prever quais os doentes que irão desenvolver esta complicação, recorre-se ao uso generalizado de medicamentos antivirais e antibióticos.
A equipa do Católica Biomedical Research Centre liderada por Maria João Amorim, integra o consórcio internacional coordenado por Monica Bettencourt-Dias, do Centro de Regulação Genómica (CRG), em Barcelona, e do qual fazem parte o médico Juan Pablo Horcajada do Hospital del Mar em Barcelona. Este consórcio identificou uma possível peça em falta neste processo: a infeção pelo vírus da gripe provoca uma destruição significativa dos cílios das vias respiratórias – pequenas estruturas semelhantes a pelos que ajudam a eliminar microrganismos e a reparar os tecidos. Quando estes cílios são destruídos, as bactérias podem entrar e proliferar nas vias respiratórias.
O projeto VIRU-CILIA combina técnicas avançadas de microscopia, análises moleculares e amostras de doentes para compreender como os vírus provocam esta lesão e desenvolver novas estratégias para proteger os cílios.
“Queremos saber mais acerca de como o vírus da gripe desarma esta barreira física à infeção, nomeadamente o que acontece à estrutura dos cílios, que sabemos que é adulterada pelo vírus. Queremos também estudar se a preservação dos cílios melhora os resultados das infeções e previne a pneumonia bacteriana. A esperança é que este conhecimento nos permita contribuir para o desenvolvimento de métodos de diagnóstico precoce e de novos tratamentos capazes de prevenir a pneumonia associada à gripe,” salienta Maria João Amorim.
Uma vez que outros vírus respiratórios, como o SARS-CoV-2 (responsável pela COVID-19) e o vírus sincicial respiratório (VSR) (uma causa muito comum de infeções das vias aéreas, especialmente em bebés e crianças), também podem afetar os cílios, os resultados deste projeto poderão contribuir para o desenvolvimento de tratamentos que reforcem as defesas naturais das vias respiratórias contra diferentes agentes patogénicos respiratórios, tanto os que já existem como os que possam surgir no futuro.
Segundo Mónica Dias, “o projeto VIRU-CILIA junta não só especialistas em cílios e em vírus, com também tem uma importante componente clínica, reunindo então as condições necessárias para descobrir novos mecanismos de doença e também para identificar marcadores de doença severa para aplicação direta na clínica. A esperança é que possamos intervir mais precocemente quando há indicação de doença severa para proteger o epitélio, reduzir o risco de pneumonia e contribuir para reduzir a morbilidade e mortalidade causada por infeções respiratórias.”
Impedir que os parasitas responsáveis pela doença se agarrem aos vasos sanguíneos
Causada principalmente pelos parasitas Trypanosoma congolense e T. vivax, a doença nagana ameaça mais de 335 milhões de animais e provoca perdas
económicas superiores a 1.5 mil milhões de dólares por ano em África e na América do Sul.
Em vez de tentar destruir diretamente o parasita, o projeto CytoBlock, liderado por Sara Silva Pereira, pretende descobrir formas de impedir que este se agarre aos vasos sanguíneos, um comportamento importante para a sobrevivência do parasita no animal.
“Começamos a perceber que a capacidade de se ligar aos vasos sanguíneos é fundamental para a progressão da doença. Se conseguirmos bloquear esta interação, poderemos interferir com um passo essencial da infeção,” diz a investigadora, que também é docente na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa.
Uma das principais pistas são os açúcares presentes na superfície dos parasitas. O projeto irá identificar as moléculas do parasita e os recetores do hospedeiro responsáveis por esta ligação – a sua “chave e fechadura” molecular – e explorar formas de bloqueá-la.
O CytoBlock reúne equipas do Católica Biomedical Research Centre, da University of Notre Dame (Estado de Indiana, Estados Unidos), da University of York (Reino Unido) e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (Portugal), combinando competências em parasitologia, glicobiologia, biologia vascular e desenvolvimento de terapias.
A Health Research Call 2026 da Fundação “la Caixa” atribuiu um total de 25,7 milhões de euros a 32 projetos de investigação biomédica, selecionados entre 800 candidaturas submetidas. Mais informação: www.cbr.fm.ucp.pt

Sara Silva Pereira

Maria João Amorim