Por Dra. Esmeralda Herrero, médica ortodontista e odontopediatra com abordagem integrativa e porta-voz clínico da Align Technology

O cancro da cavidade oral pode, em muitos casos, ser detetado precocemente com um simples exame visual à boca e, ainda assim, continua muitas vezes a ser diagnosticado em estádios avançados.

Os números em Portugal refletem esta realidade preocupante. No nosso país, foram diagnosticados cerca de 1 300 novos casos de cancro da cavidade oral em 2022,1 o que corresponde a cerca de 15 casos por 100 mil habitantes.2 A doença afeta sobretudo homens com mais de 45 anos, sendo três vezes mais frequente no sexo masculino do que no feminino. Este perfil epidemiológico ganha ainda mais relevância quando sabemos que uma parte importante dos tumores na cavidade oral e orofaringe está associada a comportamentos e exposições evitáveis, como o consumo de tabaco e álcool, bem como à infeção por HPV, o que coloca a prevenção e o aconselhamento em estilos de vida no centro da nossa atuação clínica.

Paralelamente, abordagens mais recentes encaram o cancro também como uma doença associada a alterações metabólicas e inflamatórias sistémicas, o que reforça a ligação entre a saúde oral e a saúde geral. Doenças periodontais, como a gengivite e a periodontite, caracterizam-se por um estado de inflamação crónica de baixo grau que pode refletir um desequilíbrio metabólico e um enfraquecimento da resposta imunitária, criando um ambiente biológico menos favorável ao controlo da doença oncológica. Da mesma forma, situações de disbiose, manifestadas na cavidade oral por cáries recorrentes ou halitose de origem sistémica, traduzem alterações da homeostase do organismo que devem ser consideradas no contexto da saúde global. Acresce que padrões alimentares ricos em açúcares, para além de aumentarem o risco de cárie dentária, estão associados a vias metabólicas que podem favorecer a progressão tumoral. Neste enquadramento, a vigilância regular da saúde oral e o aconselhamento dietético realizado em consultório assumem um papel relevante na prevenção e no acompanhamento integrado das doenças oncológicas.

É precisamente neste contexto que a prática diária em consultório assume um papel decisivo na deteção precoce. Durante as consultas habituais, estamos atentos a sinais de alarme bem documentados, como feridas ou úlceras que não cicatrizam após duas semanas, manchas brancas ou vermelhas persistentes, dor inexplicada ou dificuldade em mastigar e engolir. Como médicos dentistas e ortodontistas, observamos a cavidade oral com maior regularidade ao longo dos anos, e é precisamente esta proximidade que nos coloca numa posição estratégica para identificar alterações suspeitas e encaminhar atempadamente para diagnóstico.

Mas o nosso papel vai muito além da deteção. Durante os tratamentos oncológicos, acompanhamos os doentes na gestão dos efeitos secundários mais comuns, como mucosite oral, secura da boca (xerostomia), aftas recorrentes ou maior vulnerabilidade a cáries e infeções. Na prática clínica, isto traduz-se em orientar uma higiene oral adaptada, reforçar a hidratação da cavidade oral, controlar a dor e a inflamação e manter um acompanhamento próximo. Estes cuidados, para além de aliviarem o desconforto, são fundamentais para evitar complicações que podem comprometer o estado geral do doente e, em alguns casos, a continuidade da quimioterapia ou radioterapia.

É também por isso que avaliamos sempre caso a caso os tratamentos dentários e ortodônticos durante a fase ativa da doença, em permanente articulação com a equipa oncológica. Consoante o estado do doente pode ser necessário adiar ou adaptar intervenções, ou optar por abordagens mais conservadoras e facilmente ajustáveis. Em alguns casos, soluções como os alinhadores transparentes podem ser uma alternativa mais confortável e flexível, por permitirem uma melhor higiene oral e uma maior adaptação às mudanças no estado geral do doente ao longo do tratamento.

O princípio é simples: nenhuma decisão é tomada de forma isolada. A colaboração multidisciplinar é essencial para garantir segurança clínica e colocar sempre o bem-estar do paciente no centro de cada escolha⁵. Observar a cavidade oral de um doente oncológico é, muitas vezes, observar como ele enfrenta a própria doença: o seu conforto diário, a sua autoestima e até a sua resiliência para prosseguir o tratamento. Quer seja para prevenção ou acompanhamento, a consulta regular com o médico dentista não deve ser vista como opcional. A boca não é um detalhe secundário, mas uma parte essencial da saúde geral e, em muitos casos, um elemento decisivo em todo o percurso oncológico.

    Referências

  1. International Agency for Research on Cancer. (2022). GLOBOCAN 2022: Estimated cancer incidence and mortality worldwide. https://gco.iarc.fr/today
  2. Ordem dos Médicos Dentistas. (2023). Cancro oral: Sinais e sintomas. https://www.omd.pt/publico/informacao-sobre-cancro-oral