Doença crónica: inevitabilidade demográfica ou mudança estrutural? Uma decomposição da evolução da prevalência de doenças crónicas em Portugal (2017–2025)

Envelhecimento não explica o aumento e o impacto recai de forma desproporcional sobre os mais desfavorecidos

A doença crónica está a crescer em Portugal e o seu aumento resulta maioritariamente de um agravamento da carga de doença dentro dos próprios grupos etários e não apenas do envelhecimento da população. Esta é uma das principais conclusões da 14ª Nota Informativa Análises do Setor da Saúde –Doença crónica: inevitabilidade demográfica ou mudança estrutural? Uma decomposição da evolução da prevalência de doenças em Portugal (2017–2025) – que revela também um impacto particularmente desproporcional da doença crónica sobre o grupo dos mais desfavorecidos.

Desenvolvida pelos investigadores da Nova SBE Carolina Santos e Pedro Pita Barros, detentor da Cátedra BPI | Fundação”la Caixa” em Economia da Saúde, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social (uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE) com base nos dados de um inquérito a mais de 8.600 pessoas, a Nota Informativa revela que entre 2017 e 2025, a prevalência de doença crónica aumentou de 28% para 36% e a multimorbilidade (duas ou mais doenças crónicas) atingiu os 19%, após um aumento de 10 pontos percentuais.

Os resultados apontam para uma expansão da morbilidade ao longo de todo o ciclo de vida adulto, verificando-se quecerca de 71% do aumento da doença crónica resulta de um agravamento da doença dentro dos próprios grupos etários (e não apenas do envelhecimento): a prevalência é mais elevada nos grupos mais idosos (crescimento de 14 pontos percentuais entre os indivíduos com 65-79 anos), mas verifica-se um crescimento significativo também entre os mais jovens (a prevalência aumentou cerca de 8 pontos percentuais nos grupos 15–29 anos e 45–64 anos). A alteração da estrutura demográfica da população apenas explica 29% do aumento na prevalência de doentes crónicos.

Analisando a multimorbilidade, o padrão é semelhante: verifica-se que 87% do aumento na prevalência de doentes com multimorbilidade se deve a um agravamento da multimorbilidade nos grupos etários, e apenas 13% a alterações da estrutura demográfica. Entre 2017 e 2025, a percentagem de indivíduos do sexo masculino com multimorbilidade aumentou 23,5 pontos percentuais nos indivíduos com 80 ou mais anos, 16,7 pontos percentuais em indivíduos com idades compreendidas entre os 65 e os 79 anos e 3,7 pontos percentuais em homens com idades entre os 45 e os 64 anos. Esta evolução indicia que a doença crónica não só surge cada vez mais cedo, como também evolui para formas mais complexas e que se acumulam ao longo da vida, exigindo respostas mais integradas e continuadas por parte do sistema de saúde.

Atendendo à situação económica, a análise revela que a probabilidade de um indivíduo com maiores dificuldades económicas sofrer de doença crónica quase duplicou (passando de 26% em 2017 para 49% em 2025). Comparativamente com pessoas dos escalões socioeconómicos mais favorecidos, os indivíduos com maiores privações económicas tinham (em 2025) uma probabilidade 23,5 pontos percentuais superior de ser doentes crónicos, sendo o agravamento ainda mais evidente quando analisada a multimorbilidadea diferença entre grupos socioeconómicos aumentou de 4 pontos percentuais em 2017 para 27 pontos percentuais em 2025. Os dados revelam, pois, um risco crescente de desigualdade cumulativa: os grupos com maior carga de doença são também os que enfrentam maiores dificuldades no acesso a cuidados de saúde.

O crescimento significativo da prevalência de doença crónica ao longo de todo o ciclo de vida adulto, bem como um aumento acentuado da multimorbilidade, traduz-se em perfis clínicos progressivamente mais complexos, caracterizados por uma maior acumulação de condições crónicas e pela necessidade de um acompanhamento contínuo, integrado e centrado no doente. Neste contexto, os resultados apontam para a necessidade de reforçar políticas públicas que não só respondam aos desafios do envelhecimento como também travem o agravamento das desigualdades em saúde.  Orientadas para a equidade e com um impacto proporcionalmente maior nos grupos com maior carga de doença, as prioridades apontadas pelos investigadores destacam o reforço da prevenção (com maior alcance junto das populações mais vulneráveis), o desenvolvimento de modelos integrados de gestão da doença (adequados ao crescimento da multimorbilidade) e a redução das barreiras no acesso a cuidados (nomeadamente no acesso a medicação e cuidados de saúde primários).

Os dados analisados permitem assim concluir que o aumento da doença crónica possui uma componente estrutural e não se limita apenas a fatores demográficos‘(…) Os resultados desta nota reforçam a importância de continuar e aprofundar o investimento em medidas de prevenção primária e secundária, dirigidas não apenas aos idosos, mas ao conjunto da população adulta, com particular ênfase nos grupos mais vulneráveis. A evidência mostra que o crescimento da prevalência de doenças crónicas em Portugal tem uma componente estrutural que não se esgota na transição demográfica, pelo que políticas eficazes de saúde pública devem ambicionar não apenas prolongar a vida, mas melhorar os anos vividos com saúde, contribuindo, assim, para uma efetiva compressão da morbilidade’ concluem os investigadores.

Notas Informativas: Análises do Setor da Saúde:

Doença Crónica: inevitabilidade demográfica ou mudança estrutural? Uma decomposição da evolução da prevalência de doenças crónicas em Portugal (2017–2025) é a décima quarta nota da série Notas Informativas: Análises do Setor da Saúde (elaboradas no âmbito da Cátedra BPI | Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde, atribuída a Pedro Pita Barros, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE) que pretende divulgar análises sintéticas relativamente a temáticas atuais sobre o setor da saúde.

Sobre a Iniciativa para a Equidade Social:

Iniciativa para a Equidade Social é uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI, e a Nova SBE, que visa impulsionar o setor social em Portugal com uma visão de longo prazo. Traçando um retrato do setor social em Portugal e desenvolvendo programas de investigação e capacitação para apoiar organizações sociais, a iniciativa envolve oito projetos e duas cátedras.

Sobre a Cátedra Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde:

Parte da Iniciativa para a Equidade Social BPI | Fundação “la Caixa” a cátedra em Economia da Saúde foi atribuída ao Professor Pedro Pita Barros e tem como objetivo promover a investigação sobre o setor da saúde, bem como o conhecimento e discussão da sociedade portuguesa quanto a tendências, desafios e políticas do setor da saúde. Desenvolve investigação para analisar novas tendências e desafios no setor da saúde, através de medições de impacto, estudos e análises em temas como Acesso aos Serviços de Saúde, Recursos Humanos e Envelhecimento da População.

Sobre a Fundação ”la Caixa”

Fundação ”la Caixa” iniciou em 2018 a sua implantação em Portugal, consequência da entrada do BPI no grupo CaixaBank. Em 2026, destina 56 milhões de euros a projetos sociais, de investigação, educativos e de divulgação cultural e científica.

Sobre a Nova SBE:

A Nova SBE é a mais prestigiada business school em Portugal e uma das principais business schools da Europa. É a faculdade de ciências económicas, financeiras e de gestão da Universidade NOVA de Lisboa. O atual Diretor é o Prof. Pedro Oliveira (PhD, University of North Carolina at Chapel Hill). A Nova SBE é membro do CEMS desde dezembro de 2007 e tem atribuição Triple Crown em todo o mundo, o que implica a acreditação pela EQUIS, AMBA e AACSB. Foi a primeira business school portuguesa a adquirir acreditações internacionais e reconhecimento de renome mundial no ensino superior. A visão internacional da Nova SBE também se reflete na adoção do inglês como o principal idioma de ensino. A grande maioria dos cursos de licenciatura e todos os programas de mestrado, MBA e PhD são lecionados em inglês.