A Ordem dos Médicos manifesta preocupação perante os constrangimentos que têm vindo a ser conhecidos em vários hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), relacionados com a insuficiência de médicos especialistas em Anestesiologia.
O problema exige uma resposta estrutural célere. Portugal tem hoje 2520 anestesiologistas inscritos na Ordem dos Médicos, mais 500 do que há três anos. O rácio global é de 22,1 especialistas por 100 mil habitantes. Portugal está a formar anestesiologistas, mas o SNS tem de conseguir atraí‑los e criar condições para que queiram permanecer.
As estimativas disponíveis apontam para um défice superior a 600 anestesiologistas no setor público, num contexto em que aumentaram significativamente as alternativas profissionais fora do SNS.
“Não basta formar médicos. Temos de garantir que o SNS é suficientemente atrativo para que os especialistas que formamos queiram nele trabalhar, construir uma carreira e permanecer. Esta é uma questão importante de acesso dos doentes aos cuidados de saúde”, afirma Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos.
A Anestesiologia tem um efeito multiplicador decisivo na atividade hospitalar. É essencial à cirurgia programada e urgente, à medicina perioperatória, à recuperação pós‑anestésica, à analgesia do parto e cesarianas, ao tratamento da dor, à emergência e aos cuidados críticos. Tem ainda intervenção crescente em exames e procedimentos diagnósticos e terapêuticos que necessitam de sedação ou anestesia.
Por isso, a falta de um médico anestesiologista não significa apenas menos um profissional numa escala. Pode significar uma sala operatória que não funciona, uma cirurgia adiada, um procedimento que não se realiza, menor capacidade de resposta hospitalar e mais tempo de espera para os doentes.
Sem anestesiologistas suficientes, não há capacidade de formação nas outras áreas médicas e cirúrgicas. A diminuição do número de atos cirúrgicos e procedimentos reduz a atividade formativa e, pouco a pouco, cria problemas de recursos humanos noutras especialidades.
A Ordem dos Médicos alerta para a desadequação da rede de referenciação que encaminha doentes para hospitais centrais sem considerar a distribuição real dos recursos humanos de Anestesiologia. Esta desarticulação agrava a pressão sobre os hospitais centrais de elevada diferenciação e compromete a capacidade de resposta assistencial.
Para António Marques, Presidente do Colégio da Especialidade de Anestesiologia da Ordem dos Médicos, “a valorização do sistema público exige o reforço da capacidade competitiva do setor público relativamente à contratação e à retenção de recursos médicos diferenciados no contexto da carreira médica. O futuro da Anestesiologia no SNS depende da promoção de quadros estáveis, com médicos integrados numa carreira aliciante, não em soluções avulsas baseadas na prestação de serviços. Portanto, não se trata apenas de formar mais médicos ou de abrir mais vagas para contratação, mas sim, de investir na carreira médica como instrumento fundamental para a estabilidade dos serviços assistenciais”, reforçando a necessidade de integrar especialistas nos quadros, na carreira médica e em equipas estáveis.
A Ordem dos Médicos considera necessário desenvolver uma estratégia nacional para a atração e retenção de anestesiologistas no SNS, integrada numa política mais ampla de valorização da carreira médica.
É necessário identificar as necessidades reais em cada região, antecipar aposentações, contratar atempadamente os novos especialistas, criar incentivos para zonas de maior carência, melhorar as condições de trabalho e proporcionar perspetivas de diferenciação e progressão profissional, soluções que a Ordem dos Médicos tem vindo a apresentar formalmente ao Ministério da Saúde.
Deve também ser reduzida a dependência estrutural de prestações de serviços e soluções avulsas. Um hospital constrói‑se formando, valorizando e mantendo equipas. Equipas estáveis garantem continuidade assistencial, formação, responsabilidade clínica, qualidade e segurança.
A Ordem dos Médicos defende, por isso, a criação de uma estratégia nacional de planeamento, atração e retenção de anestesiologistas, entre outras especialidades, envolvendo o Ministério da Saúde, a Direção Executiva do SNS, a Ordem dos Médicos e o respetivo Colégio da Especialidade, solicitando para isso uma reunião urgente entre estas entidades.
“Quando o SNS não consegue fixar um anestesiologista perde muito mais do que um profissional. Perde capacidade para operar, diagnosticar, tratar e cuidar dos doentes”, conclui Carlos Cortes.