Mais jovens e mais mulheres num subgrupo com maior risco de comportamentos autolesivos, consumo de substâncias e readmissão hospitalar
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto vem corroborar a existência de um subgrupo clinicamente complexo e de maior risco psiquiátrico: pessoas com perturbação afetiva bipolar e perturbação de personalidade borderline concomitante, uma associação ainda subdiagnosticada, estigmatizada e insuficientemente estudada em contexto de internamento.
As duas perturbações têm várias características clínicas em comum, incluindo instabilidade afetiva, impulsividade, maior risco de comportamentos autolesivos e tentativas de suicídio, bem como dificuldades interpessoais.
O trabalho publicado no General Hospital Psychiatry analisou mais de 32 mil episódios de internamento de cerca de 19 mil doentes com perturbação afetiva bipolar em todos os hospitais públicos de Portugal continental ao longo de oito anos. Destes, 342 episódios tinham associado o diagnóstico de perturbação de personalidade borderline. A proporção de episódios identificada é, porém, inferior à de outro estudo internacional, como explicam os autores.
“A proporção de episódios com perturbação afetiva bipolar e perturbação de personalidade borderline nesta amostra portuguesa foi mais baixa do que noutro estudo norte-americano realizado também a partir de uma base de dados nacional de internamentos, podendo refletir o subdiagnóstico ou menor registo de perturbações de personalidade em contexto de internamento”, indica Mariana Viana Neto, da FMUP.
De acordo com a primeira autora, os episódios de internamento com ambos os diagnósticos envolveram pessoas significativamente mais jovens e mais mulheres, comparativamente com os episódios com perturbação afetiva bipolar sem perturbação de personalidade borderline. Contudo, esta predominância feminina pode refletir diferenças na procura de cuidados de saúde mental, que tende a ser mais frequente e mais precoce entre as mulheres, e não necessariamente uma maior predisposição para a coexistência das duas perturbações.
Os resultados da investigação revelam ainda que os episódios com ambos os diagnósticos apresentaram maior frequência de admissões urgentes e de outras perturbações psiquiátricas. A presença de perturbação de personalidade borderline associou-se a uma maior probabilidade de saída contra parecer médico, ideação suicida, tentativas de suicídio e lesões autoinfligidas, perturbações relacionadas com o consumo de álcool e substâncias ilícitas e readmissão hospitalar no período de um ano.
Excluindo os diagnósticos de perturbação afetiva bipolar e de perturbação de personalidade borderline, os diagnósticos principais mais frequentemente registados nestes episódios foram a intoxicação por benzodiazepinas e a dependência de álcool.
No futuro, “o reconhecimento mais precoce da coexistência destas duas perturbações e uma abordagem integrada durante o internamento e após a alta poderão contribuir para melhorar a continuidade dos cuidados, bem como reduzir os internamentos recorrentes e dar resposta ao risco acrescido de comportamentos autolesivos e de complicações relacionadas com o consumo de substâncias”.
Os investigadores da FMUP deixam um apelo: “É fundamental que os profissionais estejam preparados para reconhecer estas manifestações como parte de uma perturbação clínica e que mantenham uma abordagem empática, estruturada e não estigmatizante”.
“O combate ao estigma começa por reconhecer a perturbação de personalidade borderline como uma perturbação mental legítima e tratável, e não como uma característica negativa da pessoa. É importante abandonar rótulos associados à ideia de que estes doentes são “difíceis”, “manipuladores” ou responsáveis pelas suas próprias crises”, sublinham.
Por fim, “a formação dos profissionais de saúde, a melhoria da literacia em saúde mental e uma comunicação pública rigorosa podem contribuir para mudar estas perceções. O diagnóstico deve servir para compreender melhor as necessidades da pessoa e orientar o tratamento, nunca para reduzir a pessoa a um rótulo”.
Coordenado por Lia Fernandes, este estudo tem como autores, além de Mariana Viana Neto, Ana Rita Ferreira, Manuel Gonçalves Pinho, Rui Barranha e Alberto Freitas, todos professores e investigadores da FMUP.