Quem faz tratamentos de fertilidade sabe que muito facilmente estes acabam por monopolizar toda a vida. São ciclos que começam com a esperança, passam pela frustração e têm muita espera incluída, com “muitas consultas, exames e medicação”, explica a Dr.ª Alexandra Grade Silva, psicóloga clínica da Ferticentro. Ou seja, a infertilidade e os tratamentos associados ganham uma relevância que faz com que o impacto emocional seja, sem surpresas, “muito grande”. É aqui que entram as estratégias de coping, capazes de reduzir o impacto psicológico em todo o percurso.

“Nós notamos que as pessoas que fazem tratamentos acabam por ter mais tendência para desenvolver sintomatologia depressiva e ansiosa”, refere a especialista. “Quando chegam à consulta de Psicologia, normalmente é já porque o médico, o enfermeiro ou o administrativo, percebeu que alguma coisa não está tão bem. Por exemplo, uma paciente que chora muito durante as consultas, que mostra muita tristeza, muita mágoa e, por vezes, até desesperança, pode estar a sinalizar que as coisas já não estão a correr dentro da normalidade. Mas muitos pacientes que passam por estes tratamentos têm estas sintomatologias negativas, sem que sejam patológicas.”

Quando o sofrimento acaba por afetar o dia a dia das pessoas, o cenário muda. “Se uma paciente tem dificuldades para ir trabalhar, se começa a isolar-se muito da sua rede de apoio, sente que as coisas que fazia antes já não lhe dão prazer, isso pode significar que há aqui um sofrimento clínico mais significativo.”

Uma situação que é transversal aos dois sexos, ainda que com algumas diferenças. ”Não é regra, mas em consulta, o que reparo mais é que a mulher apresenta sempre muita tristeza, tem uma necessidade maior de se recolher, de se isolar, enquanto os homens tendem a guardar mais para si as emoções, com exceção da raiva, que se nota mais neles. Claro que sabemos que essa zanga está a esconder tristeza, mas manifesta-se de uma forma diferente do que nas mulheres.”

Ferramentas para o dia a dia

De acordo com a especialista, há estratégias para lidar com o stress associado a todo este processo, que passam muito por aquilo que cada pessoa sente que funciona melhor para si. “São estratégias que já funcionavam antes: se eu, ao fim de um dia difícil, gosto de escrever, então essa é uma boa estratégia para ativar nestas alturas. Mas há conselhos que costumo dar muito em consulta, como tentar aceitar as emoções à medida que elas aparecem. Se estamos tristes, a melhor estratégia é aceitar essa tristeza. Permitir-me estar triste, faz com que amanhã o dia seja um bocadinho mais leve”.

A questão da gestão da culpa não é fácil. “Estas pacientes tendem a culpar-se muito: ‘o meu corpo está a falhar, por isso é que isto não está a funcionar’; ‘porque é que eu não pensei em engravidar mais cedo’; o que é que eu fiz no dia anterior à transferência de embriões para que não funcionasse’… Isto é um discurso muito negativo, que é muito comum.” Normalizar é o que Alexandra Grade Silva procura fazer: “como é que podemos pensar sobre nós de uma forma um bocadinho mais empática, como é que aconselhávamos uma melhor amiga que estivesse a passar pelo mesmo processo? Se calhar não dizíamos as coisas que dizemos a nós mesmos”.

O papel da família e dos amigos é também importante, até porque, como refere a especialista, “há uma tendência para as pessoas que estão nesta situação se isolarem e não partilharem que estão a fazer tratamentos. Já é difícil para elas lidarem com isto, quanto mais terem de estar sempre a dizer a toda a gente. Mas deve haver um equilíbrio, temos de escolher as pessoas que sabemos que nos vão trazer conforto quando precisamos. Para a família e os amigos, isso às vezes significa só reconhecer o sofrimento, porque estes tratamentos envolvem muitos lutos invisíveis, muitas coisas que se perdem, que não são físicas, de que ninguém fala. Então, é mais fácil para a sociedade não reconhecer que aquela pessoa está a sofrer.”

A especialista deixa ainda alguns conselhos que podem ajudar: “tentar levar um dia de cada vez, viver os dias de forma mais presente. Ajuda focarmo-nos no dia de hoje: o que é que eu consigo controlar versus o que é que eu não consigo controlar? Consigo controlar as coisas de que gosto, ir trabalhar, ir à consulta; não consigo controlar se os tratamentos vão funcionar, se vou conseguir ter filhos, etc. Às vezes, ajuda fazer até um esquema mental: no dia de hoje, o que é que eu tenho para fazer, o que é que eu posso controlar e no dia de amanhã logo se vê.”


Sobre a Ferticentro:

Fundada há mais de 20 anos, a Ferticentro é um centro de Procriação Medicamente Assistida (PMA) de referência em Portugal, dedicado ao diagnóstico e tratamento da infertilidade. Ao longo de mais de duas décadas de atividade, a clínica tem estado na vanguarda da inovação, introduzindo no país alguns dos mais relevantes avanços tecnológicos na área da Medicina Reprodutiva.

A Ferticentro disponibiliza o maior banco de esperma e óvulos de dadores não anónimos em Portugal, assegurando informação transparente, objetiva e rigorosa sobre os dadores. Com uma equipa multidisciplinar composta por mais de +60 profissionais altamente especializados, a clínica apoia pessoas de todo o mundo na concretização do seu projeto de parentalidade, combinando experiência clínica, tecnologia de ponta e um acompanhamento personalizado.