Doentes operados têm menos incapacidade e mais qualidade de vida
Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) demonstrou que a cirurgia bariátrica ou metabólica melhora significativamente a qualidade de vida dos doentes, reduzindo em 36% a carga individual de incapacidade provocada pelas doenças associadas à obesidade.
Os resultados, publicados na revista científica Obesity Surgery, apontam para a eficácia da cirurgia não apenas na perda de peso, mas também na devolução de anos de vida saudável à população portuguesa, bem como na poupança de gastos com medicamentos.
A investigação, que acompanhou 383 doentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) ao longo de três anos, avaliou, pela primeira vez, o impacto clínico e financeiro deste procedimento fora do ambiente controlado dos ensaios clínicos tradicionais, incluindo a evolução dos custos com medicação para doenças relacionadas com a obesidade (hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia, asma e perturbações psiquiátricas).
“Não pretendíamos apenas saber quanto peso se perde, mas também perceber se as pessoas passam a ter menos doenças associadas à obesidade, se necessitam de menos medicação e se vivem com menor impacto da obesidade no seu dia a dia. Esta questão é particularmente relevante num país em que a obesidade afeta uma proporção muito significativa da população adulta”, afirmam André Oliveira, que terminou o curso de medicina com este trabalho, e Paula Freitas, professora da FMUP, que o coordenou.
Este trabalho revela melhorias drásticas na saúde metabólica dos participantes. “A maior descida verificou-se na dislipidemia (colesterol ou triglicéridos elevados), cuja prevalência caiu de 47% para 15% dos doentes (menos 32 pontos percentuais). A hipertensão recuou de 41% para 21%, a diabetes tipo 2 de 26% para 10% e a asma de 8% para 3%. Já as perturbações psiquiátricas mantiveram-se estáveis nos 28%”, indicam.
A melhoria do estado de saúde traduziu-se numa redução média anual total de 56,11 euros por doente nos custos com medicamentos, com a maior contribuição proveniente da medicação para diabetes tipo 2, seguida dos anti-hipertensores e dos medicamentos para dislipidemia. O custo anual médio por pessoa passou de 178,21 euros para 122,09 euros. A redução estimada na coorte deste estudo é de cerca de 21.490 euros por ano em fármacos para as cinco doenças avaliadas.
No entanto, “quando uma terapêutica deste tipo é reduzida ou suspensa após cirurgia metabólica, a poupança potencial pode atingir várias centenas ou, em casos específicos, milhares de euros por ano. Na diabetes tipo 2, alguns dos medicamentos incluídos no estudo têm custos anuais estimados elevados, podendo ultrapassar os 3 mil euros”.
De acordo com os autores, “apesar da expansão dos medicamentos para tratar a obesidade, a cirurgia metabólica continua a ser, para pessoas selecionadas, a intervenção mais eficaz para obter e manter uma perda de peso substancial a longo prazo. O seu efeito vai além da restrição alimentar: altera mecanismos gastrointestinais, hormonais e metabólicos que ajudam a melhorar a saciedade, o controlo da glicemia e outras doenças associadas”.
“A principal mensagem é que a obesidade é uma doença crónica e tratável, não uma falha individual. Para os decisores, o estudo sugere que o valor da cirurgia não se mede apenas pelo peso perdido ou pelo custo do procedimento. Deve considerar-se também a potencial redução de doenças associadas, do consumo de medicamentos e da sobrecarga de doença”, concluem.
A cirurgia é atualmente recomendada para pessoas com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 40 kg/m² e pessoas com IMC superior a 35 kg/m² com doença associada, como diabetes tipo 2, hipertensão ou apneia do sono, ou quando as abordagens não cirúrgicas não permitiram obter uma perda de peso sustentada ou uma melhoria clínica. Para situações de excesso de peso sem obesidade, a cirurgia metabólica não é a opção habitual, preferindo-se intervenções no estilo de vida, terapêutica farmacológica e acompanhamento clínico multidisciplinar”.
Além de André Oliveira (primeiro autor) e de Paula Freitas (coordenadora), participaram neste estudo outros investigadores da FMUP (Eduardo Lima da Costa e Hugo Santos Sousa), bem como de outras instituições portuguesas (Carolina Bulhosa, Pedro Apolónia e Margarida Borges).