Plataforma digital vai disponibilizar informação sobre benefícios, riscos e limitações dos rastreios do cancro para ajudar cidadãos a tomar decisões informadas.
Uma investigação da NOVA Medical School destinada a apoiar decisões informadas sobre rastreios oncológicos vai ser aplicada em contexto clínico, através de uma plataforma digital que será testada nos próximos 24 meses nos cuidados de saúde primários. O projeto DECIDE-SCREEN, financiado pela Fundação “la Caixa”, pretende disponibilizar aos utentes informação sobre benefícios, riscos e limitações dos rastreios para poderem decidir melhor em conjunto com os profissionais de saúde.
O projeto ‘DECIDE-SCREEN – Auxiliares digitais para apoiar decisões informadas sobre rastreios oncológicos nos cuidados de saúde primários: um estudo-piloto’ é coordenado pelo laboratório colaborativo Value for Health (VOH.CoLAB), em parceria com a NOVA Medical School e a Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental (ULSLO). Foi uma das iniciativas selecionadas para financiamento no âmbito da la Caixa Foundation Health Research Call 2026.
A plataforma, que será testada numa unidade de cuidados de saúde primários da região de Lisboa Ocidental, vai identificar automaticamente as pessoas elegíveis para determinados rastreios oncológicos e enviar-lhes, por SMS ou correio eletrónico, ferramentas de apoio à decisão baseadas na melhor evidência científica disponível. O objetivo é permitir que cada pessoa conheça antecipadamente as diferentes opções, pense sobre elas ao seu ritmo e chegue mais preparada ao momento da decisão, em vez de concentrar toda a informação na duração de uma consulta.
Numa primeira fase, a plataforma vai focar-se em duas ferramentas de apoio à decisão do doente: uma para o rastreio do cancro do colo do útero e outra para o rastreio do cancro colorretal (dois dos cancros mais frequentes em Portugal, ambos abrangidos por programas nacionais de rastreio). Estas ferramentas apresentarão informação clara, equilibrada e acessível, ajudando cada pessoa a compreender o que esperar e a preparar uma conversa mais informada com o seu médico.
“Decidir sobre um rastreio oncológico não é apenas decidir se fazemos ou não um exame. É compreender o que podemos ganhar com o rastreio, conhecer as limitações e os possíveis riscos. Outras vezes é escolher entre diferentes estratégias quando existe mais do que uma opção clinicamente adequada. Queremos que essa informação chegue às pessoas antes da consulta, para que possam refletir e participar de forma mais informada nas decisões sobre a sua saúde, de acordo com os seus valores e preferências”, explica Bruno Heleno, médico de família e professor e investigador da NOVA Medical School.

Além de avaliar a utilização e a integração na prática clínica, a plataforma vai permitir compreender se esta disseminação digital chega de forma equitativa aos diferentes grupos da população, procurando identificar eventuais barreiras (nomeadamente ao nível da literacia digital) para garantir que a abordagem melhora o acesso a informação de qualidade sem aumentar desigualdades em saúde.
“O DECIDE-SCREEN é um exemplo de como podemos aproximar investigação, tecnologia e cuidados de saúde para transformar evidência científica em soluções concretas e com potencial de utilização no mundo real”, refere Federico Guede, investigador do VOH.CoLAB e coordenador do projeto.
O desenvolvimento da plataforma dá continuidade ao trabalho de investigação realizado em 2023 por Bruno Heleno e Mafalda Proença-Portugal, investigadores da NOVA Medical School, em colaboração com a Escola Nacional de Saúde da Universidade NOVA de Lisboa e a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

O estudo, intitulado ‘Perceções dos médicos de clínica geral sobre ferramentas de apoio à decisão em cuidados de saúde: um estudo qualitativo em Portugal’, revelou um conhecimento limitado destas ferramentas entre a maioria dos médicos entrevistados, que frequentemente as confundem com sistemas de apoio à decisão clínica, como as calculadoras de risco. Mais de 90% dos participantes reconheceram não ter formação em decisão partilhada nem utilizar regularmente estas ferramentas. Ainda assim, todos manifestaram uma atitude favorável à sua adoção.
Entre os principais obstáculos identificados estão a falta de tempo nas consultas, a escassez de financiamento e a ausência de versões adaptadas à realidade portuguesa. Os investigadores apontaram como possíveis soluções a integração destas ferramentas nos sistemas informáticos de saúde, a formação dos profissionais e a tradução e adaptação cultural de ferramentas já existentes. Os resultados reforçam a necessidade de criar condições para que estas soluções possam ser utilizadas de forma simples e regular nos cuidados de saúde primários.
“Nas consultas, nem sempre há tempo para explicar todas as opções, esclarecer dúvidas e compreender as preferências de cada utente. Uma ferramenta que permita preparar essa conversa pode contribuir para decisões mais esclarecidas e partilhadas. O teste em contexto clínico será fundamental para perceber como integrar esta abordagem nos cuidados de saúde primários”, explica Ana Rita Maria, médica de família da ULS de Lisboa Ocidental.
Os resultados do DECIDE-SCREEN poderão contribuir para uma futura utilização mais alargada de auxiliares de apoio à decisão do doente no Serviço Nacional de Saúde, promovendo uma prática clínica mais empática e centrada no doente, que favoreça decisões mais informadas, transparentes e alinhadas com os valores de cada pessoa, e contribuindo para a melhoria da qualidade geral dos cuidados prestados.