| · Simpósio “A Saúde Começa na Boca – Açúcar, o inimigo silencioso” reuniu especialistas de diferentes áreas da saúde, decisores e representantes do setor para debater o impacto do açúcar na saúde dos portugueses |
| · Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) apresenta três prioridades de atuação e vai fazer chegar ao Governo uma carta aberta com propostas para reforçar a prevenção, reduzir desigualdades e melhorar o acesso aos cuidados de saúde oral |
| A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) defende uma resposta integrada no consumo excessivo de açúcar que conjugue saúde oral, alimentação, prevenção das doenças crónicas e acesso aos cuidados primários de saúde, desafiando os decisores políticos a traduzirem as recomendações apresentadas, esta segunda-feira, num plano de ação com objetivos e avaliação de resultados. |
| A posição foi assumida no simpósio “A Saúde Começa na Boca – Açúcar, o inimigo silencioso” que reuniu especialistas em medicina dentária, cardiologia, endocrinologia, nutrição, diabetes, psicologia e ciências comportamentais, responsáveis da Direção-Geral da Saúde e representantes de diferentes setores, incluindo o setor da distribuição. |
| O debate partiu da necessidade de discutir o açúcar numa perspetiva transversal, juntando diferentes valências da saúde e ultrapassando uma leitura exclusivamente centrada na doença oral. A evidência científica estabelece uma relação causal robusta entre a quantidade de consumo de açúcares livres e a cárie dentária, estando o consumo excessivo também associado ao excesso de peso e ao risco de doenças crónicas não transmissíveis, incluindo a diabetes tipo 2. |
| No encerramento, Miguel Pavão, Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, apresentou três prioridades para Portugal: proteger a saúde oral e as crianças; corrigir o ambiente alimentar e comercial; e enfrentar as causas sociais, comerciais e políticas que condicionam a prevenção e o acesso aos cuidados de saúde. |
| “Não basta criar medidas, temos de garantir que são conhecidas, utilizadas e eficazes, sobretudo para quem enfrenta maiores barreiras. A prevenção alimentar e a saúde oral não podem continuar a ser tratadas como áreas separadas”, afirma Miguel Pavão, defendendo uma articulação mais estreita entre o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e o Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral, com objetivos comuns, indicadores partilhados e coordenação regular. |
| Também a Diretora-Geral da Saúde, Rita Sá Machado, destacou durante o encontro a necessidade de aprofundar a articulação entre o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e o Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral. “Não faz sentido falarmos da redução do consumo de açúcar na saúde oral de uma forma e de alimentação saudável de outra. Para as pessoas não existem este tipo de fronteiras. Precisamos de promover a saúde de forma integrada, com mais promoção, mais prevenção e mais trabalho multidisciplinar”, afirmou. |
| A primeira prioridade apresentada pela OMD passa por reforçar a prevenção desde a infância, fazendo da prevenção da cárie dentária uma prioridade nacional e promovendo uma intervenção particularmente precoce nos primeiros anos de vida. 46,5% das crianças portuguesas entre os 5 e os 14 anos bebem refrigerantes açucarados pelo menos uma vez por semana e 35,5% apresentam excesso de peso. A Ordem defende, assim, maior orientação às famílias, mais literacia alimentar e uma atuação articulada entre médicos dentistas, higienistas orais, médicos de família, pediatras, enfermeiros, nutricionistas e outros profissionais de saúde. |
| Na segunda prioridade, centrada no ambiente alimentar e comercial, a OMD considera necessário continuar a avaliar e reforçar as medidas que promovem a redução do açúcar, melhorar a rotulagem e a oferta alimentar em creches e escolas e garantir uma proteção efetiva das crianças face à publicidade de produtos ricos em açúcar, em particular nos meios digitais. Entre 2017 e 2025, a proporção de bebidas enquadradas no escalão mais elevado do IABA (Imposto sobre as bebidas alcoólicas e não alcoólicas) diminuiu cerca de 45%, um sinal compatível com a reformulação da oferta, embora a Ordem defenda que é necessário avaliar o impacto efetivo destas medidas no consumo. A OMD defende, ainda, que as políticas fiscais associadas ao açúcar preservem uma ligação clara aos objetivos de promoção da saúde. |
| A terceira prioridade centra-se na equidade e no acesso aos cuidados, numa realidade em que a saúde oral continua fortemente marcada pelas desigualdades sociais. A dentição natural completa é cerca de três vezes mais frequente nas classes sociais mais altas do que nas mais baixas – 46,4% face a 14,4% – e 22,2% dos portugueses referem dificuldades financeiras como razão para não recorrerem regularmente ao médico dentista. Acresce que 70,3% da população desconhece a oferta de medicina dentária existente no SNS. |
| A OMD defende uma intervenção dirigida às crianças e famílias em situação de maior vulnerabilidade, uma melhor divulgação da oferta pública de medicina dentária, a otimização dos mecanismos existentes e a análise das razões pelas quais tantas referenciações para medicina dentária não se traduzem na concretização de uma consulta. A Ordem considera, ainda, essencial definir metas mensuráveis, monitorizar resultados e avaliar se as políticas chegam efetivamente às populações que mais precisam. |
| “A saúde oral não pode ficar à margem da política alimentar. E a política alimentar não pode ignorar os dentes. Proteger as crianças do excesso de açúcar é investir na sua saúde, no seu futuro e numa sociedade mais justa”, sublinha Miguel Pavão. |
| A OMD vai fazer chegar ao Governo uma Carta Aberta com um call to action com as prioridades e propostas resultantes do simpósio, desafiando os decisores políticos a reforçar a ligação entre prevenção, equidade e acesso aos cuidados e a integrar efetivamente a saúde oral nas políticas gerais de promoção da saúde. A proposta passa por transformar os compromissos apresentados num plano de ação com responsáveis definidos, calendário, financiamento, indicadores públicos e avaliação periódica. |