Nem todas as mudanças da menopausa se fazem sentir. Enquanto algumas mulheres reconhecem alterações no sono, no peso ou na disposição, outras atravessam esta fase sem diferenças significativas no dia a dia. É nesta ausência de sinais evidentes que surge o conceito de Silent Transition, uma transição silenciosa em que o organismo pode estar a mudar, mesmo quando a mulher sente que tudo permanece igual.
A diminuição dos estrogénios pode influenciar o perfil lipídico, a distribuição da gordura corporal e outros fatores associados à saúde cardiovascular. O colesterol é um dos indicadores que merece atenção, tornando importante acompanhar estes valores mesmo quando não existem queixas. Isto não significa que todas as mulheres desenvolvam colesterol elevado ou doença cardiovascular, mas que a menopausa representa uma oportunidade para reavaliar os fatores de risco e reforçar a prevenção.
Uma análise ao colesterol permite conhecer valores como o LDL e o HDL, mas os resultados devem ser interpretados em conjunto com outros indicadores, como a pressão arterial, a glicemia e os antecedentes pessoais e familiares. A avaliação global permite compreender melhor o risco cardiovascular e definir as medidas preventivas mais adequadas a cada mulher.
A importância desta vigilância é reforçada por um estudo apresentado em 2026 no European Journal of Preventive Cardiology, intitulado Mind the knowledge gap: cardiovascular disease awareness and literacy in postmenopausal Portuguese women. Entre as 127 mulheres portuguesas pós-menopáusicas avaliadas, 68,3% revelaram pouca ou nenhuma consciência sobre a doença cardiovascular nas mulheres e apenas 14% se consideravam bem informadas sobre o tema. Os resultados evidenciam a necessidade de reforçar a informação e a prevenção nesta fase da vida.
“A menopausa é uma fase em que devemos olhar para a saúde da mulher para além dos sintomas que ela identifica. Pode sentir-se bem e manter a sua rotina habitual, mas isso não significa que os fatores de risco cardiovascular permaneçam inalterados. A avaliação clínica e o acompanhamento de indicadores como o colesterol permitem identificar alterações e agir preventivamente, tendo em conta as necessidades de cada mulher”, explica a Dra. Marta Padilha, médica de Medicina Geral e Familiar.
A frequência das análises e os exames necessários devem ser definidos de acordo com a idade, os antecedentes e os fatores de risco individuais. A alimentação equilibrada, a atividade física regular e o acompanhamento clínico são também componentes importantes da prevenção cardiovascular.
A Silent Transition lembra-nos que nem todas as mudanças relevantes para a saúde são acompanhadas por sinais percetíveis. Na menopausa, conhecer os próprios valores e compreender o seu significado é um passo importante para uma prevenção mais informada. Porque sentir-se bem é importante, mas saber como está a sua saúde cardiovascular também.