Uma revisão sistemática e meta-análise envolvendo mais de 14.000 indivíduos, estabeleceu uma ligação definitiva entre hábitos de higiene oral infrequentes e um aumento do risco de cancro oral.
O estudo, liderado pelos investigadores Lorena Mariano e Luís Monteiro, da Unidade de Investigação UNIPRO (IUCS-CESPU), contou com a colaboração dos experts internacionais Saman Warnakulasuriya (Centro Colaborador da OMS para o Cancro Oral, King’s College London) e Béatrice Secretan (Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro – IARC/OMS).
Quebrar o paradigma do ” tabaco e álcool como fatores de risco únicos”
Embora o consumo de tabaco, o álcool e a infeção por HPV sejam causas bem estabelecidas para Cancro Oral, esta investigação prova que os hábitos de higiene oral são igualmente vitais. Ao analisar dados de 15 estudos de países de 4 continentes, os investigadores descobriram que a frequência da escovagem e o rastreio profissional regular alteram drasticamente o perfil de risco do paciente:
- O Impacto da Escovagem: Indivíduos que escovam os dentes menos de uma vez por dia enfrentam um risco 85% maior de desenvolver cancro oral em comparação com aqueles que o fazem pelo menos uma vez ao dia.
- O Padrão de escovagem de Duas Vezes ao Dia: Escovar apenas uma vez por dia parece ser insuficiente; aqueles que escovam menos de duas vezes por dia registaram um aumento de 32% no risco em comparação com os que cumprem a recomendação de duas ou mais vezes.
- O Papel das Consultas de Rotina: Visitas irregulares ao dentista (definidas como menos de uma vez por ano) foram associadas a um aumento de 58% no risco de cancro.
Um desafio problemático para a Saúde Pública em Portugal
Os resultados têm implicações profundas para Portugal, onde a acessibilidade aos cuidados de Saúde Oral continua a ser um desafio crítico. Apesar dos benefícios preventivos comprovados dos exames anuais, o Barómetro de Saúde Oral (OMD, 2025) indica que quase 40% da população não visita o dentista anualmente, muitas vezes por barreiras económicas ou falta de perceção sobre a importância destas consultas para a saúde oral.
Os investigadores destacam a escassez crítica de profissionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que conta atualmente com apenas cerca de 250 médicos dentistas – um número insuficiente para garantir consultas de Medicina Dentaria anuais a toda a população.
“Este estudo reforça que uma boa saúde oral não serve apenas para um sorriso bonito – é uma medida preventiva que salva-vidas”, afirma Luís Monteiro, investigador Sénior da UNIPRO.
Recomendações para reformas de políticas públicas
O estudo apela ao reforço das medidas governamentais para fortalecer os cuidados de saúde oral através de:
- Acesso Universal: Garantir que todos os cidadãos tenham acesso a pelo menos uma consulta de Medicina Dentária anual, por exemplo integrando de forma eficiente os serviços de saúde oral públicos e privados.
- Consciencialização Pública: Educar a população para o facto de a higiene oral e as visitas regulares ao dentista serem estratégias baseadas em evidência científica para o controlo do cancro.
- Investimento no Setor Público: Reforçar o número de profissionais e a carreira de Medicina Dentária no SNS para cumprir os padrões preventivos identificados nesta análise global.
Sobre a UNIPRO:
A Unidade de Investigação em Patologia e Reabilitação Oral (UNIPRO), sediada no Instituto Universitário de Ciências da Saúde (IUCS-CESPU), dedica-se a promover investigação translacional que resulte em benefícios diretos para a saúde da comunidade portuguesa.