Décima edição do Barómetro de Internamentos Sociais revela que 13,9% das camas do SNS estão ocupadas com internamentos inadequados, ou seja, com doentes que não deveriam estar internados num hospital
Aumento significa um agravamento de mais de 60 milhões de euros nos custos para o Estado
Falta de resposta das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) justifica a maior parte dos dias de internamentos inapropriados
Mais de 439 mil dias de internamentos inapropriados, com uma demora média de 157 dias por episódio, continuam a pressionar a capacidade hospitalar, sobretudo nas regiões Norte e Lisboa e Vale do Tejo
Os internamentos sociais continuam a representar uma parte significativa dos internamentos em Portugal. Entre março de 2025 e março de 2026, o número de camas ocupadas no SNS por este motivo aumentou 19%, para 2.807, revela a 10.ª Edição do Barómetro dos Internamentos Sociais (BIS) da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), realizada em parceria com a EY Portugal, e com o apoio institucional da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP) e da Ordem dos Assistentes Sociais (OAS).
Os internamentos inapropriados representam já 13,9% dos internados nos hospitais públicos. Há dois anos, o chamado índice de inapropriação do internamento estava nos 11,1% e, no barómetro do ano passado, nos 11,7%. Este índice reflete, agora, um custo anual para o Estado de 351 milhões de euros por ano, mais 63 milhões do que no barómetro anterior. Os cálculos são feitos com base nos dados registados até 19 de março.
Considera-se internamento inapropriado todos os dias que um doente passa no hospital após alta clínica e quando não existe um motivo de saúde que justifique a sua permanência em ambiente hospitalar. Ao todo, os serviços do SNS registaram 439.871 dias deste tipo de internamentos no espaço de um ano, mais 20% do que na análise anterior. Já o tempo médio dos internamentos sociais manteve-se praticamente inalterado (157 dias por episódio a nível nacional), embora se observem variações relevantes entre regiões, que vão dos 239 dias na Região Norte ou 124 em Lisboa e Vale do Tejo aos 32 dias no Alentejo.
A análise revela também que as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte são responsáveis por 85% do total dos internamentos inapropriados a nível nacional. A Região Centro apresentou o maior rácio entre o número de internamentos inapropriados e o número de camas disponíveis, com a situação a agravar-se significativamente face ao barómetro do ano passado.
A nível nacional, a falta de resposta da Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCCI) foi responsável pela maior parte (45%) dos internamentos inapropriados, acima dos 38% do ano anterior. Este é o principal motivo de internamento social em todas as regiões do país.
Quando a análise é feita aos motivos dos dias de internamento social o destaque vai para a falta de resposta em Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI), que tem um impacto relevante no prolongamento dos internamentos em grande parte do país, com especial destaque para Lisboa e Vale do Tejo e Algarve. Outras causas relevantes, como situações sociais e familiares complexas, também têm um peso significativo.
Segundo Xavier Barreto, Presidente da APAH, “os internamentos sociais continuam a pressionar de forma considerável a capacidade de resposta do SNS, com impacto direto na eficiência dos serviços e no acesso aos cuidados”. “É fundamental apostar no reforço da capacidade instalada fora do hospital e uma agilização dos processos legais, em particular no que toca ao Regime do Maior Acompanhado, que continua a constituir um bloqueio à alta. O investimento no apoio domiciliário e nos cuidadores deve também ser encarado como uma prioridade estrutural”, acrescenta.
Já Paulo Luís Silva, Health Sciences and Wellness Leader da EY Portugal, afirma que “os resultados apontam para a necessidade de uma abordagem mais preventiva e coordenada, que passe pela identificação atempada de situações de risco social e por um planeamento de altas mais eficaz”. “É
aconselhável reforçar a articulação entre diferentes setores e apostar em soluções de proximidade, como o apoio domiciliário, para reduzir a dependência do internamento hospitalar. Ao mesmo tempo, a otimização da gestão de camas e a melhoria dos sistemas de monitorização são medidas essenciais para garantir uma utilização mais eficiente dos recursos”, defende ainda.
As instituições possuem algumas alternativas aos internamentos sociais, nomeadamente a aplicação da portaria 38-A/2023, de 2 de fevereiro. Atualmente, a nível nacional, existem 27 instituições com alternativas, sendo que no dia 19 de março estavam 1.035 doentes em vagas contratualizadas, e 714 tinham sido integrados no âmbito da aplicação da referida portaria.
Os dados mostram, também, que a situação de internamento indevido incide igualmente sobre os dois sexos. Nota-se, porém, com maior incidência em doentes com mais de 65 anos (72%), em internamentos de índole médica (71%) e no serviço de medicina interna (46%).
O 10.º Barómetro de Internamentos Sociais, desenvolvido pela APAH em parceria com a EY Portugal, contou com a participação de 41 unidades hospitalares do SNS, num total de 20.383 camas, representando 97% do total do SNS.