| Cimeira europeia “Tackling Infertility” decorre na manhã desta sexta-feira em Lisboa |
| Secretária de Estado Adjunta e da Igualdade reconhece constrangimentos no acesso a tratamentos. Especialistas defendem resposta política urgente perante queda contínua da fertilidade. |
| O acesso à fertilidade continua longe de ser garantido na Europa e a resposta à crise demográfica depende, sobretudo, de vontade política. A conclusão marca o arranque dos trabalhos na cimeira europeia “Tackling Infertility”, promovida pela Merck com apoio da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, da Subespecialidade Medicina de Reprodução da Ordem dos Médicos e da Associação Portuguesa da Reprodução, que reúne, esta sexta-feira, em Lisboa especialistas e decisores de vários países. |
| O acesso a tratamentos de fertilidade em Portugal continua condicionado por listas de espera e pela escassez de gâmetas no setor público, reconhece a Secretária de Estado Adjunta e da Igualdade, Carla Rodrigues, que admite que os resultados alcançados “poderiam ser superiores” sem estas limitações. |
| “Os números são significativos, mas poderiam ser superiores se o acesso a estas técnicas não estivesse condicionado pelas listas de espera e pela disponibilidade de gâmetas no setor público. Ainda assim, Portugal apresenta um enquadramento muito positivo a nível europeu, não só pela legislação existente, mas também pelo trabalho desenvolvido pelos centros de procriação medicamente assistida”, declara a Secretária de Estado, que sublinha a necessidade de uma resposta articulada. |
| A dimensão do desafio exige, no entanto, uma resposta política estruturada. “Sem vontade política nada é possível. A fertilidade tem de ser assumida como uma prioridade de saúde pública, porque estamos perante uma tendência global de declínio da população que já não afeta apenas a Europa, mas também economias desenvolvidas”, alerta Samir Hamamah, presidente da Federação Francesa de Estudos Reprodutivos. |
| O especialista destaca que a taxa de fertilidade deverá continuar a diminuir nas próximas décadas, num contexto em que a Europa regista já 1,38 filhos por mulher, abaixo do nível de substituição de 2,1. |
| Declínio global e desigualdades no acesso na Europa |
| “A dinâmica da população humana está em declínio e esta tendência vai continuar. Resulta de uma combinação de fatores sociais, ambientais e médicos. O adiamento da parentalidade é um dos principais determinantes, mas há também um conjunto de fatores estruturais, desde as prioridades profissionais à dificuldade de conciliar vida pessoal e profissional, passando por fatores ambientais que impactam diretamente a fertilidade”, explica. |
| Samir Hamamah sublinha ainda que o declínio da fertilidade não se limita às mulheres. “A idade dos homens no momento do primeiro filho também está a aumentar e isso tem impacto na fertilidade e na saúde reprodutiva. Este é um tema que continua a ser pouco discutido, mas que deve fazer parte do debate”, afirma. |
| A infertilidade assume uma expressão crescente, afetando já um em cada seis casais, num contexto marcado por baixa literacia sobre o tema. |
| No caso francês, apresentado como exemplo, a infertilidade é já tratada como uma prioridade de saúde pública, com uma estratégia nacional estruturada em seis áreas de atuação: “assumimos a infertilidade como uma prioridade nacional, com uma abordagem que integra educação, formação de profissionais, melhoria do diagnóstico e coordenação de políticas públicas. A mensagem é clara: se não houver compromisso político, não haverá resultados”, acrescenta. |
| No plano europeu, o principal desafio continua a ser o acesso. “Dentro da União Europeia existem realidades muito diferentes. O acesso a tratamentos de fertilidade não é igual e, em muitos casos, depende do financiamento disponível ou do enquadramento legal”, afirma Klaudija Kordic, da Fertility Europe. |
| A responsável destaca que o problema vai além da natalidade. “O foco deve ser menos na taxa de fertilidade e mais nas pessoas que querem ter filhos e não conseguem. O que está em causa é a capacidade real de concretizar essa decisão, e isso depende diretamente das políticas públicas e das condições de acesso aos cuidados de saúde”, sublinha. |
| A partir do Atlas de Políticas de Tratamento da Fertilidade, que avalia 49 países, Klaudija Kordic reforça que persistem desigualdades estruturais. |
| “Há países com bom enquadramento legal, mas sem financiamento suficiente, e outros onde determinados grupos continuam excluídos. Isto mostra que o problema não é técnico, é político, e pode ser resolvido com decisões concretas”, conclui. |
| Neste contexto europeu marcado por desigualdades no acesso, apesar de um enquadramento legislativo favorável no contexto europeu, Portugal enfrenta ainda desafios no acesso efetivo aos tratamentos. A Secretária de Estado, Carla Rodrigues, defende uma resposta concertada entre Governo, profissionais de saúde e sociedade civil, assumindo a natalidade como “um desígnio nacional” e a fertilidade como um pilar do desenvolvimento. |
| Os contributos reunidos até ao momento apontam para uma resposta à crise da fertilidade que exige uma abordagem integrada e ajustada a cada país, sustentada por compromisso político e medidas concretas que garantam às pessoas a possibilidade real de constituir família. |