“As Palavras Pesam”: médicos e associações de doentes unem-se para mudar a forma como se fala e comunica sobre obesidade em Portugal

  • O estigma do peso continua a gerar discriminação e desigualdade.
  • Um novo guia propõe mudar a linguagem usada por decisores, profissionais e media para uma abordagem mais rigorosa e centrada na pessoa.

No âmbito do Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade, que se assinala este ano a 23 de maio, a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), a Associação de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO), a Associação Portuguesa contra a Obesidade Infantil (APCOI) e a Novo Nordisk Portugal lançam hoje a iniciativa “As Palavras Pesam”, que pretende promover uma comunicação mais rigorosa, inclusiva e centrada na pessoa que vive com peso em excesso (pré-obesidade e obesidade), contribuindo para eliminar preconceitos e estereótipos.

A obesidade é reconhecida como uma doença crónica, complexa e multifatorial, influenciada por determinantes genéticos, biológicos e ambientais, e não como o reflexo de falhas individuais. Ainda assim, o estigma e a forma como o tema é enquadrado no espaço público continuam a impactar negativamente a saúde física e mental de milhões de pessoas que vivem com obesidade, a eficácia das intervenções e o desenvolvimento de políticas públicas efetivas.

Neste contexto, a iniciativa preparou um Guia Rápido de Comunicação para a Obesidade dirigido à sociedade em geral, em particular para quem informa e decide. No âmbito da iniciativa, as recomendações serão partilhadas com os deputados da Assembleia da República, com decisores na área da saúde e meios de comunicação social. O guia pode ser consultado no link www.aspalavraspesam.pt.

As recomendações agora lançadas sublinham que a linguagem não é neutra — pode reforçar estereótipos, aumentar a culpa individual e perpetuar ciclos discriminatórios e estigmatizantes. Por isso, defendem uma transição para linguagem centrada na pessoa e partilham exemplos práticos:

  • Preferir “pessoa que vive com obesidade” em vez de “obeso”, evitar expressões populares consideradas estigmatizantes, como “cheia” ou “gorducha”;
  • Utilizar imagens que retratem comportamentos, atividades e estilos de vida diversificados* ao invés de imagens com foco desnecessário em determinadas áreas corporais, sem mostrar o rosto, ou que retratem as pessoas com obesidade como isoladas, tristes, sedentárias ou com hábitos alimentares pouco saudáveis.

O estigma relacionado com o peso continua amplamente presente na sociedade1,2,afetando as pessoas que vivem com peso em excesso em múltiplos contextos quotidianos. Esta realidade traduz-se frequentemente em atitudes discriminatórias, em julgamentos morais sobre o estilo de vida e na culpabilização individual das pessoas que vivem com peso em excesso, desvalorizando os fatores biológicos, sociais e ambientais que influenciam o peso1,3.

As consequências são relevantes: impacto negativo na saúde física e mental, agravamento das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde e aumento de disparidades sociais. Combater este estigma e preconceito passa, por isso, por uma maior consciência sobre a linguagem utilizada e a forma como estas pessoas são retratadas1, 2, 4-6.

“Acreditamos que a linguagem molda perceções e que as perceções influenciam decisões, comportamentos e resultados em saúde. Por isso, defendemos uma comunicação rigorosa, inclusiva e centrada na pessoa”, afirma José Silva Nunes, Presidente da SPEO. “A linguagem carrega uma carga simbólica que, quando mal gerida, torna-se uma barreira entre as pessoas e o sistema de saúde.”

A sociedade em geral desempenha um papel crucial na mudança de perceções2,7, devendo adotar uma abordagem humanista e baseada em evidência científica1-3, 6-9. As pessoas com peso em excesso devem ser tratadas com respeito e dignidade, e que a sociedade em geral esteja atenta à importância da linguagem, promovendo uma narrativa que contribua para eliminar preconceitos e estereótipos1-3, 6, 10, 11.

No contexto pediátrico, Mário Silva, Presidente da APCOI, alerta para o impacto do estigma: “Nas crianças e adolescentes, o estigma linguístico interfere diretamente na construção da autoestima e na relação com o corpo, com consequências para toda a vida.”

Para Carlos Oliveira, Presidente da ADEXO, esta mudança é fundamental para a dignidade das pessoas que vivem com obesidade: “Mudar a linguagem é criar condições para uma conversa no espaço público mais justa, mas sobretudo uma conversa correta. A pessoa com obesidade tem de sentir que fazer o seu dia a dia, sem o fardo de rótulos que limitam o seu potencial e as suas opções”.

“Ao disponibilizar este recurso, pretendemos que a vida das pessoas que vivem com obesidade deixe de estar condicionada por preconceito”, afirma Helena Novais, Diretora de Corporate Affairs da Novo Nordisk Portugal. “O estigma que ainda persiste deve dar lugar a uma abordagem mais humana e a uma comunicação inclusiva, que coloque a pessoa no centro”.

Segundo dados globais recentes, estima-se que cerca de 1.000 milhões de pessoas vivam com obesidade em todo o mundo12. Em Portugal, dados de 2025 indicam que 17% da população adulta vive com obesidade e 38,2% apresenta pré-obesidade13. Na população pediátrica, dados nacionais de 2022 apontam para uma prevalência combinada de 31,9% de pré-obesidade e obesidade e uma prevalência de obesidade de 13,5% em crianças entre os 7 e os 9 anos14.

A obesidade é uma doença crónica complexa, agravada pelo estigma social e pelo preconceito. Para saber mais sobre a obesidade consulte o link www.averdadesobreopeso.pt.