Financiamento do Conselho Europeu de Investigação (ERC) permite recriar características físicas de dois subtipos de tumor e aproximar os resultados promissores obtidos em laboratório à realidade clínica.

Um projeto liderado por João Conde, professor e investigador da NOVA Medical School, recebeu um financiamento europeu ERC Proof of Concept, no valor de 150 mil euros, para estudar a resposta de tumores da mama aos tratamentos disponíveis. O objetivo é desenvolver e validar um modelo de laboratório que permita recriar e controlar com precisão as características físicas de dois subtipos de cancro da mama, testando diferentes terapias já aprovadas para identificar quais têm maior probabilidade de produzir melhores resultados nos doentes.

O projeto, designado APOLLO-BC, parte da evidência de que muitos medicamentos têm um desempenho promissor em laboratório que não se confirma quando aplicados aos doentes. Uma das razões para esta diferença está na dificuldade de reproduzir, fora do organismo, as condições físicas reais em que os tumores se desenvolvem.

No âmbito do APOLLO-BC, João Conde pretende recriar em laboratório fatores físicos do tumor, como fluxo de fluídos, rigidez dos tecidos, e a penetração dos fármacos, condições que os modelos tradicionais, como as culturas 2D, e mesmo alguns modelos avançados 3D, não replicam eficazmente. Estas características influenciam como os medicamentos atuam nos tumores e a própria resposta ao tratamento.

“Ao reproduzirmos as características mais próximas de cada tumor, queremos perceber, de forma direta e comparativa com outros modelos já usados em laboratório, se conseguimos prever melhor quais os tratamentos com maior probabilidade de resultar em cada doente”, explica João Conde, investigador da NOVA Medical School e responsável pelo projeto. “Se tudo correr bem, é a primeira vez que este tipo de validação acontece, em que comparamos a resposta de dois modelos, lado a lado, com amostras dos mesmos doentes.”

A investigação foca-se nos subtipos de cancro da mama Triplo-negativo e HER2-positivo. Ambos apresentam respostas muito variáveis aos tratamentos existentes. Ao longo de 18 meses, o APOLLO-BC vai comparar a nova abordagem com os modelos convencionais pré-clínicos, com recurso a amostras de 40 doentes e testar pelo menos seis tratamentos já aprovados. A avaliação vai medir a reprodutibilidade dos resultados, a capacidade de ordenar, numa escala de decisão, as terapias mais adequadas e a concordância com a resposta clínica real.

O financiamento ERC Proof of Concept vai permitir consolidar uma nova linha de investigação no laboratório do investigador dedicada a sistemas ex vivo (tecidos, órgãos ou células extraídas de um organismo vivo e mantidos num ambiente artificial) para prever a resposta aos tratamentos em cancro.

Caso demonstre vantagens claras sobre os modelos tradicionais, a plataforma desenvolvida pelo APOLLO-BC poderá ser adaptada a outros tumores sólidos, incluindo os de pâncreas, pulmão, ovário, próstata ou colorretal.

O ERC Proof of Concept é um programa do Conselho Europeu de Investigação destinado a apoiar a transformação de resultados científicos em tecnologias e aplicações com potencial de impacto social e económico.