A fertilidade é frequentemente associada à idade ou a doenças do sistema reprodutor. No entanto, muitos dos fatores que podem comprometer a capacidade de engravidar fazem parte da rotina diária e passam despercebidos durante anos. O uso prolongado de alguns medicamentos comuns, como determinados antidepressivos e anti-inflamatórios, a alimentação desequilibrada, as noites mal dormidas ou o consumo de álcool são apenas alguns dos hábitos que podem afetar silenciosamente a saúde reprodutiva de homens e mulheres, alerta a Dra. Catarina Marques, ginecologista e especialista em medicina da reprodução.

Existe ainda a ideia de que a infertilidade surge apenas quando há uma doença diagnosticada, mas a verdade é que muitos hábitos aparentemente inofensivos podem interferir com o equilíbrio hormonal, a qualidade dos óvulos e espermatozoides e até com a implantação do embrião. O mais preocupante é que, na maioria dos casos, estes efeitos não dão sinais imediatos”, explica a especialista.

A infertilidade afeta cerca de 10 a 15% dos casais. Em aproximadamente 30% dos casos está relacionada com causas femininas, outros 30% com causas masculinas, 20% com fatores mistos e os restantes permanecem sem explicação aparente. Segundo a médica, o estilo de vida tem um peso crescente na saúde reprodutiva, sobretudo numa altura em que homens e mulheres são pais mais tarde e acumulam níveis elevados de stress, sedentarismo e exposição a substâncias potencialmente nocivas.

A fertilidade não depende apenas do aparelho reprodutor. Está profundamente ligada ao estado geral de saúde e ao equilíbrio do organismo. Pequenas escolhas diárias, quando mantidas durante anos, podem ter impacto acumulado e reduzir as hipóteses de gravidez”, sublinha a Dra. Catarina Marques.

A especialista destaca sete hábitos comuns que podem afetar a fertilidade sem que muitas pessoas se apercebam.

1. Tomar determinados medicamentos sem acompanhamento médico

Alguns medicamentos de uso frequente podem interferir com a fertilidade, sobretudo quando utilizados durante períodos prolongados ou sem vigilância médica. Entre eles estão certos antidepressivos, anabolizantes, anti-inflamatórios e terapêuticas hormonais. Isto não significa que as pessoas devam interromper tratamentos importantes, mas sim que devem conversar com o médico quando existe um projeto de gravidez.

2. Exposição excessiva ao calor e a certos materiais plásticos

Nos homens, a exposição frequente a fontes de calor, como saunas, banhos muito quentes ou o hábito de usar portáteis sobre o colo durante longos períodos, pode afetar a produção de espermatozoides. Além disso, alguns compostos químicos presentes em plásticos e pesticidas, conhecidos como disruptores endócrinos, estão associados a alterações hormonais que podem comprometer a fertilidade masculina e feminina.

3. Dormir pouco e viver em stress constante

Dormir mal e viver em estado permanente de ansiedade pode interferir com a produção hormonal e afetar a ovulação e a qualidade do sémen. O stress crónico aumenta os níveis de cortisol no organismo, alterando mecanismos hormonais importantes para a fertilidade. Além disso, a privação de sono está associada a alterações metabólicas e inflamatórias que também podem comprometer a saúde reprodutiva.

4. Consumir álcool com frequência

O consumo regular de álcool pode diminuir a fertilidade tanto nos homens como nas mulheres. No organismo feminino, pode interferir com a ovulação e aumentar o risco de alterações hormonais. Nos homens, está associado à diminuição da testosterona e da qualidade espermática. Existe uma certa banalização social do consumo frequente de álcool, sobretudo em contextos de lazer, mas é importante perceber que a fertilidade também sofre impacto.

5. Fumar ou consumir canábis

O tabaco continua a ser um dos principais inimigos da fertilidade. Nas mulheres, acelera o envelhecimento dos ovários e reduz a qualidade dos ovócitos. Nos homens, afeta a concentração e mobilidade dos espermatozoides. Já a canábis, muitas vezes encarada como uma substância inofensiva, pode alterar hormonas reprodutivas, dificultar a implantação do embrião e prejudicar a qualidade do sémen.

6. Alimentação desequilibrada e excesso de peso

Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, açúcares e gorduras saturadas podem contribuir para alterações hormonais, obesidade e inflamação crónica, fatores associados a dificuldades de fertilidade. Pelo contrário, uma alimentação variada e equilibrada, inspirada na dieta mediterrânica, favorece a saúde reprodutiva e o equilíbrio metabólico.

7. Sedentarismo e falta de atividade física

A ausência de exercício físico está associada a maior risco de obesidade, doenças metabólicas e alterações hormonais. A prática regular de atividade física melhora a circulação sanguínea, o metabolismo e o equilíbrio hormonal, além de contribuir para a redução do stress. Há também estudos que sugerem benefícios do exercício na qualidade espermática.

Em resumo, a Dra. Catarina Marques reforça que a fertilidade deve ser encarada como parte integrante da saúde geral e que muitos destes fatores podem ser modificáveis. “Nem sempre é possível controlar tudo, mas adotar hábitos de vida mais saudáveis pode melhorar significativamente a saúde reprodutiva e aumentar as hipóteses de gravidez. O mais importante é não ignorar sinais do corpo e procurar aconselhamento médico atempadamente, sobretudo quando existe um projeto de maternidade ou paternidade”, conclui.