Professor da FMUP avaliou papel da dieta em marcadores de doença

O consumo de hambúrgueres vegetarianos que mimetizam a carne reduz significativamente os níveis de um composto associado ao risco de problemas cardiovasculares, como enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca ou mesmo morte. 

A conclusão é de um trabalho publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, e assinado pelo professor e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) João Pedro Ferreira. 

O ensaio clínico, intitulado Finding Optimal Oral Diet-1 (FOOD-1), pretendia analisar a ingestão de uma dieta com um hambúrguer à base de plantas versus uma dieta contendo carne vermelha no que respeita aos valores de TMAO (Trimethylamine N-oxide), composto associado à ingestão de produtos de origem animal.

Conduzido no Canadá, “este trabalho surgiu da curiosidade científica acerca dos potenciais riscos e benefícios dos produtos de origem vegetal que mimetizam carne de origem animal, fruto da colaboração ativa entre a FMUP e a Universidade de McGill (Montreal)”.

Foram recrutados participantes com risco cardiovascular elevado, incluindo diabetes, hipertensão arterial ou história de problemas cardiovasculares prévios (como enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral). Além da TMAO, foram avaliados outros marcadores de risco cardiovascular, incluindo o colesterol.

Neste estudo, 41 participantes consumiram hambúrguer à base de plantas (dois por dia) ou hambúrguer à base de carne de vaca (dois por dia) durante seis dias, cruzando para a dieta alternativa após um período de sete dias de uma pausa necessária para que a substância da dieta fosse eliminada do organismo. 

No final da intervenção, “o estudo mostrou que hambúrgueres vegetarianos que mimetizam carne reduzem os níveis de TMAO comparativamente com hambúrgueres de carne bovina”, indica João Pedro Ferreira. A ingestão de hambúrgueres à base de plantas associou-se também a níveis mais baixos de colesterol LDL.

Os resultados mostram, assim, que “a substituição de carne bovina por mimetizadores de carne de origem vegetal pode ajudar na prevenção cardiovascular, mantendo o sabor a carne que muitas pessoas apreciam”.

João Pedro Ferreira observa, porém, que estes produtos à base de plantas são processados e com alto teor de sal, pelo que o seu consumo regular também não está recomendado. 

O professor da FMUP aconselha, por isso, a realização de novos estudos que comparem o impacto das dietas vegetarianas com as dietas à base de produtos de origem animal na ocorrência de eventos cardiovasculares. 

“No futuro, devemos comparar o impacto para a saúde humana da carne produzida a partir de células estaminais de origem animal (ou “carne cultivada”) com a carne tradicional obtida através da produção pecuária convencional”, sugere João Pedro Ferreira. 

As recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) já vão no sentido de se limitar o consumo de carne, de modo a mitigar os riscos para a saúde, que incluem maior risco de doenças cardiovasculares e cancro. 

Este estudo contou também com a participação do professor e investigador da FMUP Pedro Marques.