Setembro | Mês de consciencialização para a Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina
A síndrome do ovário poliquístico (SOP), que passou recentemente a designar-se Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina (SOMP), afeta entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva e continua a ser uma das principais causas de alterações hormonais e dificuldade em engravidar. Contudo, numa altura em que muitas mulheres recorrem às redes sociais para procurar respostas sobre sintomas, fertilidade ou tratamentos, cresce também a desinformação associada a esta doença

Em vésperas do mês de consciencialização para esta síndrome, que se assinala em setembro, a Dra. Margarida Enes, ginecologista e especialista em medicina da reprodução do IVI Lisboa, alerta para os riscos de conteúdos sem base científica divulgados online.

Há muita desinformação sobre esta síndrome. As redes sociais estão a criar falsas expectativas sobre fertilidade e perda de peso. Circulam conselhos simplistas, dietas extremas, suplementos sem evidência científica e até promessas de cura que podem criar falsas expectativas e atrasar o diagnóstico e o tratamento adequado”, refere a especialista.

Novo nome procura refletir melhor o que se sabe sobre a doença

A médica explica que esta é uma síndrome hormonal e metabólica complexa, que se manifesta de forma diferente de mulher para mulher. Esta visão mais abrangente da doença levou recentemente um grupo internacional multidisciplinar de especialistas a chegar a consenso quanto à alteração da designação para Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina (SOMP), um nome que procura refletir melhor o conhecimento científico atual e tornar mais claro que esta condição vai muito além dos ovários, já que não corresponde à presença de quistos nem se limita à função reprodutiva.

Entre os sintomas mais frequentes desta condição estão ciclos menstruais irregulares, acne, aumento de pelos em zonas típicas do corpo masculino, dificuldade em controlar o peso e alterações da ovulação. “O problema é que muitos destes sinais são normalizados ou interpretados fora de contexto. Há mulheres que chegam à consulta convencidas de que têm a síndrome apenas porque se identificaram com um vídeo ou um testemunho nas redes sociais e outras que, apesar de terem sintomas compatíveis, adiam a procura de ajuda porque acreditam que aquilo que sentem é normal”, acrescenta.

Embora a síndrome esteja frequentemente associada à infertilidade, a Dra. Margarida Enes sublinha que o diagnóstico não significa impossibilidade de engravidar. “Pode dificultar a ovulação, mas não é uma sentença de infertilidade. Muitas mulheres conseguem engravidar naturalmente e outras podem, através de tratamentos simples, restaurar a ovulação e aumentar significativamente a probabilidade de gravidez”, esclarece.

Segundo a especialista, um dos mitos mais comuns nas redes sociais é a ideia de que todas as mulheres com a síndrome têm excesso de peso. “Existem mulheres magras com a síndrome e, nesses casos, o diagnóstico pode ser ainda mais difícil porque nem sempre existe suspeita clínica imediata”, explica. Outro erro frequente é a associação da síndrome exclusivamente aos ovários. “Não é apenas um problema ginecológico. Trata-se de uma condição metabólica que pode aumentar o risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e alterações cardiovasculares”, alerta.

A proliferação de conteúdos sobre alimentação, fertilidade e perda de peso também preocupa os especialistas. “Há mulheres que iniciam dietas muito restritivas ou tomam suplementos recomendados por influencers sem qualquer acompanhamento clínico. Mais recentemente, começaram também a circular nas redes sociais vários conteúdos sobre fármacos utilizados para perda rápida de peso, apresentados quase como uma solução automática”, afirma a médica ginecologista.

A especialista alerta, contudo, que ainda existem muitas dúvidas relativamente ao impacto destes medicamentos na fertilidade e na gravidez. “Embora alguns destes fármacos possam ser indicados em contextos específicos e sob supervisão médica, não estão aprovados como tratamentos de fertilidade e continuam a faltar estudos robustos sobre os seus efeitos na conceção, na ovulação e na segurança durante a gravidez. Por isso, é importante evitar a automedicação e decisões tomadas com base em testemunhos publicados online”, sublinha.

Segundo a Dra. Margarida Enes, mudanças no estilo de vida podem ajudar a controlar os sintomas e melhorar a ovulação, mas não existem soluções milagrosas. “A redução de peso, quando necessária, deve ser feita de forma gradual, equilibrada e acompanhada por profissionais de saúde. Cada mulher tem características e necessidades diferentes”, refere.

O diagnóstico deve basear-se em critérios clínicos e laboratoriais 

A avaliação inclui história menstrual, sintomas, análises hormonais e ecografia ginecológica. “O acompanhamento deve ser multidisciplinar e adaptado aos objetivos de cada mulher, quer pretenda controlar sintomas, melhorar a qualidade de vida ou engravidar”, refere a Dra. Margarida Enes.

Para a especialista, o aumento da visibilidade da síndrome nas redes sociais teve também um efeito positivo ao permitir que mais mulheres falem abertamente sobre sintomas antes ignoradosNo entanto, reforça a importância de distinguir testemunhos pessoais de informação médica validada