“Temos o dever de proteger a saúde pública”, defendeu Jaime Ferreira da Silva na tertúlia “Coaching: uma mais-valia da Psicologia”, promovida pela Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), na sede da OPP, em Lisboa. Os riscos de intervenções realizadas sem conhecimentos de Psicologia e a importância da formação para reconhecer os limites entre coaching e questões de natureza clínica estiveram no centro do debate.

Lisboa, 24 de Setembro de 2026 – “É um embuste algum do coaching que anda por aí. Temos o dever de proteger a saúde pública”, afirmou Jaime Ferreira da Silva, Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da OPP, defendendo a necessidade de distinguir o coaching realizado por profissionais qualificados de práticas que entram no domínio da intervenção psicológica sem que quem as realiza tenha formação para reconhecer os seus limites.

A questão, sublinhou, não passa por rejeitar o coaching. “A nossa cruzada deve ser contra as pessoas que fazem usurpação de profissão.”

Um dos principais riscos surge quando uma intervenção que começa por uma questão profissional revela dificuldades de natureza emocional, familiar ou clínica. Ao longo da sessão foram abordados casos de pessoas que procuraram ajuda para problemas aparentemente circunscritos ao trabalho e acabaram por trazer questões que exigiam uma compreensão mais ampla do funcionamento psicológico.

É precisamente nesta fronteira que a formação em Psicologia pode fazer a diferença. Fernanda Moura destacou a mais-valia de ser psicóloga no exercício do coaching, recordando o caso de uma cliente que a escolheu precisamente por não saber, à partida, se os temas que iria trazer se manteriam exclusivamente no plano profissional.

“Quem procura coaching por uma questão de carreira, liderança, desempenho ou tomada de decisão, beneficia da intervenção de um psicólogo especializado na área. Além disso, a pessoa pode acabar por trazer para a intervenção outras dimensões da sua vida. A formação em Psicologia permite reconhecer essas diferentes dimensões, compreender os limites da intervenção e avaliar qual a resposta mais adequada.”

Jaime Ferreira da Silva sintetizou esta relação através de uma imagem: “Vejo o coaching e a psicoterapia como a dupla hélice do ADN.” Uma das questões fundamentais para o psicólogo, explicou, é perceber se existe uma queixa clínica que esteja a impedir a pessoa de atingir o seu potencial.

É importante proteger as pessoas de promessas sem fundamento

A sessão abordou também os riscos de uma oferta de coaching assente em formação insuficiente e de intervenções que ultrapassam as competências de quem as realiza. Promessas como “eu curo depressões em três sessões” foram apresentadas como exemplo dos perigos que podem surgir quando problemas de saúde psicológica são abordados sem a preparação necessária.

A evidência científica, a ética e a deontologia assumem, por isso, particular importância no coaching realizado no âmbito da Psicologia. Mais do que afirmar uma área de intervenção profissional, está em causa garantir respostas fundamentadas e saber reconhecer os limites de cada intervenção.

Num contexto em que as fronteiras entre desenvolvimento profissional, desenvolvimento pessoal e saúde psicológica podem ser ténues, a formação em Psicologia constitui uma mais-valia para compreender essas fronteiras, intervir de forma fundamentada e reconhecer quando é necessária uma resposta diferente.

A tertúlia “Coaching: uma mais-valia da Psicologia” realizou-se no Auditório da Sede da Ordem dos Psicólogos Portugueses, em Lisboa, integrada na iniciativa “Tertúlias a Sul”, da Delegação Regional do Sul. A sessão teve como oradores os psicólogos Jaime Ferreira da Silva e Fernanda Moura, e foi moderada por Hugo Santos, membro da Direção da Delegação Regional do Sul da OPP.