- A mulher que realiza esta técnica de procriação medicamente assistida (PMA) tem, em média, 42 anos, sofre de insuficiência ovárica precoce, foi submetida a uma cirurgia aos ovários, apresenta uma qualidade ovocitária de base reduzida devido a doenças genéticas ou já foi anteriormente submetida a tratamento de radioterapia ou quimioterapia
- Os especialistas alertam que a idade dos ovócitos, e não a idade do útero, é o principal fator que condiciona a fertilidade feminina e determina a taxa de sucesso
A fertilidade é associada à idade e, de facto, as portuguesas nunca foram mães tão tarde. Em 2025, a idade média da mãe ao nascimento do primeiro filho estabeleceu-se nos 30,72 anos, o que reflete uma tendência de adiamento da maternidade, impulsionada por fatores profissionais, económicos, sociais e pessoais. São cada vez mais as mulheres que optam por ser mães depois dos 40. Contudo, apesar dos avanços científicos e da melhoria da esperança média de vida, a fertilidade feminina continua fortemente condicionada pela idade, em particular pela idade dos ovócitos.
As probabilidades de sucesso dos tratamentos realizados com ovócitos próprios diminuem significativamente a partir dos 40 anos. De acordo com os dados mais recentes do Relatório de Atividade dos Centros de Procriação Medicamente Assistida (PMA), cerca de 20% dos nascimentos resultantes de técnicas de reprodução assistida em Portugal envolvem a utilização de ovócitos doados. A idade média das mulheres que recorrem a esta opção é de 42¹ anos.
Os tratamentos com recurso a ovócitos de dadora apresentam taxas de sucesso altas, uma vez que o fator determinante deixa de ser a idade da mulher que recebe o tratamento e passa a ser a idade biológica do ovócito utilizado, chegando a alcançar 99% após três tentativas. Por isso, no caso de situações complexas, esta é, muitas vezes, a alternativa mais eficaz.
“Hoje acompanhamos um número crescente de mulheres que chegam à consulta depois dos 40 anos. São mulheres saudáveis, que têm vida ativa, mas cuja fertilidade está inevitavelmente condicionada pelo envelhecimento dos seus ovócitos. A doação de ovócitos permite ultrapassar essa limitação e oferece uma oportunidade real de concretizar o projeto de maternidade. Prova disso é que, no IVI, à semelhança dos dados nacionais, cerca de um quinto das mulheres que acompanhamos consegue ser mãe através desta opção”, explica Drª Tetyana Semenova, ginecologista e especialista em medicina reprodutiva.
Uma opção para diferentes perfis de mulheres
Embora a idade seja o motivo mais frequente para recorrer a esta técnica, o recurso a óvulos doados não se limita apenas a mulheres que adiaram a maternidade. Está igualmente indicada em casos de reserva ovárica baixa e/ou fraca qualidade, ou sempre que a mulher apresente alguma condição que dificulta a gravidez com os seus próprios óvulos. Falamos de falência ovárica prematura ou menopausa precoce, antecedentes de cirurgia aos ovários, doenças hereditárias ou tratamentos de quimioterapia ou radioterapia prévios. É igualmente uma opção para mulheres que já realizaram várias tentativas de Fertilização in vitro com óvulos próprios sem sucesso.
“Há alguns anos, a doação de ovócitos era um assunto rodeado de maior reserva. Hoje encontramos mulheres e casais mais informados, muitas vezes porque conhecem alguém que passou pela mesma experiência. Isso contribui para uma abordagem mais natural e menos estigmatizada”, refere a especialista.
Na seleção da dadora são considerados vários critérios, nomeadamente a compatibilidade genética e do grupo sanguíneo, bem como características fenotípicas, como a cor dos olhos, o tom de pele, cor de cabelo, entre outros. Atualmente também existem tecnologias sofisticadas, que procuram a dadora mais adequada para cada mulher, o que faz com que muitas mulheres se sintam cada vez mais confortáveis a optar pela doação de ovócitos.
“Em Portugal, a doação de ovócitos enquadra-se num regime legal que garante a confidencialidade de todas as partes envolvidas. Na prática, a dadora permanece anónima para a recetora e a recetora permanece anónima para a dadora. No entanto, a pessoa nascida através de um tratamento com recurso à doação de gâmetas pode, ao atingir a maioridade, solicitar ao Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) o acesso à identidade da dadora, caso assim o pretenda. Importa ainda sublinhar que a dadora não adquire quaisquer direitos nem responsabilidades legais sobre a criança, assegurando tranquilidade e segurança jurídica a todos os intervenientes”, explica a Dr.ª Tetyana Semenova.
O papel da gravidez vai para além da genética
Um dos maiores mitos associadas à doação de ovócitos prende-se com a ideia de que a mãe passa a ter um papel secundário no desenvolvimento do bebé, por este resultar de um ovócito doado. Contudo, a evidência científica demonstra precisamente o contrário.
Atualmente, sabe-se que existe uma comunicação permanente entre o organismo materno e o embrião durante a gravidez. O ambiente uterino influencia e modela a informação genética do bebé, independentemente de este ser gerado com óvulo próprio ou doado.
“O ambiente uterino é considerado importante, uma vez que pode modificar e influenciar a forma como a informação genética desse bebé se manifesta e, por conseguinte, isso poderá refletir-se nas caraterísticas físicas e no estado de saúde do recém-nascido, conclui o especialista”.
Referências:
1 CONSELHO NACIONAL DE PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA – Relatório de Atividade Desenvolvida pelos Centros de PMA em 2023. Lisboa, CNPMA, fevereiro de 2026
2 INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA – Estatísticas Demográficas: 2025. Lisboa: INE, 2026. Disponível na Internet: ine.pt.