Quando se fala em saúde intestinal, é frequente ouvir que “o intestino é responsável por 70% da imunidade”. Embora esta percentagem seja amplamente utilizada para traduzir a forte relação entre o intestino e o sistema imunitário, a realidade é mais complexa, o trato gastrointestinal concentra uma parte significativa dos tecidos associados à imunidade e é um dos principais locais de interação entre o organismo, os microrganismos e o ambiente externo.

É neste contexto que a microbiota intestinal assume um papel relevante. As comunidades de microrganismos que vivem no intestino interagem continuamente com o sistema imunitário, ajudando a regular a resposta inflamatória e a manter a integridade da barreira intestinal. Entre os compostos produzidos pela microbiota estão os ácidos gordos de cadeia curta, que participam em mecanismos relacionados com a função da barreira intestinal e a regulação da resposta imunitária.

Esta relação funciona nos dois sentidos. Se, por um lado, a microbiota influencia o desenvolvimento e funcionamento do sistema imunitário, por outro, o próprio sistema imunitário ajuda a controlar a composição e o comportamento dos microrganismos presentes no intestino. Quando este equilíbrio é alterado, pode ocorrer disbiose, uma alteração da composição ou funcionamento da microbiota que tem sido associada a diferentes condições de saúde.

“Não podemos olhar para a microbiota apenas como um conjunto de bactérias boas ou más, nem assumir que uma determinada alteração significa automaticamente uma melhoria ou perda da imunidade. Existe uma relação dinâmica entre microbiota, barreira intestinal e sistema imunitário, e é importante compreender esta relação no contexto global da saúde de cada pessoa”, explica o Dr. Pedro Brogueira, médico especialista em Infecciologia da Timeless by Marta Padilha®.

A saúde intestinal é influenciada por vários fatores, entre os quais a alimentação. Uma dieta diversificada, rica em alimentos de origem vegetal e fibra, pode contribuir para a diversidade e atividade da microbiota. A Organização Mundial da Saúde recomenda, para adultos e crianças com mais de 10 anos, um consumo diário de pelo menos 25 gramas de fibra alimentar naturalmente presente nos alimentos.

Também a utilização de antibióticos merece atenção. Apesar de serem fundamentais no tratamento de infeções bacterianas, podem alterar temporariamente a composição da microbiota intestinal, razão pela qual a sua utilização deve ser feita de forma adequada e sempre sob orientação médica.

Mais do que procurar suplementos ou alimentos específicos com a promessa de “reforçar as defesas”, cuidar do intestino passa por hábitos consistentes, uma alimentação variada, atividade física regular, sono adequado e utilização responsável de medicamentos, nomeadamente antibióticos. Perante sintomas intestinais persistentes, alterações relevantes do trânsito intestinal ou outras queixas, a avaliação médica é essencial para perceber a sua origem.

Compreender a relação entre intestino e imunidade é, por isso, perceber que o organismo não funciona através de sistemas isolados. A microbiota, o intestino e o sistema imunitário comunicam continuamente, e cuidar deste equilíbrio pode ser uma componente importante de uma estratégia de saúde preventiva e de longevidade.