• Em Portugal, as famílias suportam uma fatia invulgarmente alta de custos de saúde
  • Em 2025, cerca de 27,8% da despesa em saúde foi suportada diretamente pelas famílias, mantendo Portugal entre os países europeus onde este tipo de encargos tem maior peso (INE, 2026).
  • Os medicamentos dispensados nas farmácias comunitárias representam cerca de 20% dos pagamentos diretos e afetam particularmente os agregados de menor rendimento (OECD, 2025).
  • Em 2025, mais de metade (52%) dos indivíduos no escalão socioeconómico mais baixo declararam não ter adquirido toda a medicação prescrita, contra apenas cerca de 1% nos escalões mais favorecidos (Barros & Santos, 2025).
  • Perante este cenário, um teto máximo anual de despesa em medicamentos surge como instrumento de proteção financeira das famílias. Mas a forma como é desenhado (o valor do limite e os grupos abrangidos) determina tanto o custo para o Estado como quem realmente beneficia.

A mais recente nota informativa do Observatório da Despesa em Saúde Tetos de Despesa em Medicamentos: Quanto Custa Proteger as Famílias? analisa o impacto da introdução de limites máximos anuais de despesa em medicamentos como mecanismo de proteção financeira das famílias portuguesas.

O estudo desenvolvido no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social (uma parceria entre a Fundação ‘la Caixa’, o BPI e a Nova SBE) e da autoria dos investigadores da Nova SBE Margarida Pires e Pedro Pita Barros (detentor da Cátedra BPI | Fundação ‘la Caixa’ em Economia da Saúde)  parte de um exercício de microssimulação com base no Inquérito às Despesas das Famílias de 2022 (INE). Foram testados quatro valores de teto anual por pessoa (200€, 250€, 300€ e 400€) e diferentes níveis de cobertura, desde a focalização apenas no quintil mais pobre (Q1) até à aplicação universal a todos os agregados.

O mecanismo simulado é simples: quando a despesa do agregado se mantém abaixo do limite, este suporta integralmente o seu valor; quando a despesa excede o limite, o agregado passa a pagar apenas 5% do montante excedente, sendo os restantes 95% cobertos pelo Serviço Nacional de Saúde.

Um custo que varia entre 548 milhões e 3,8 mil milhões de euros

O custo da política depende decisivamente do desenho escolhido. Um teto universal de 250€ por pessoa custaria entre 1,83 e 3,83 mil milhões de euros por ano, consoante as hipóteses consideradas. Focalizar a medida reduz drasticamente esse encargo: aplicá-la apenas aos quintis Q1 e Q2 baixa o custo líquido para cerca de 548 milhões de euros, após dedução da poupança fiscal em IRS. Essa poupança fiscal é significativa: nas versões mais abrangentes, a menor dedução de despesas de saúde em IRS compensa entre 8% e 12,5% do custo direto da política.

Como se distribui o benefício entre as famílias

A política, na sua versão mais abrangente, beneficia sobretudo os agregados de rendimentos elevados: o Q5 capta o maior ganho médio por agregado, enquanto o Q1 capta o menor. Esta dupla regressividade justifica a proposta de uma proteção modulada pelo rendimento. Os números são claros: para um teto de 250€, o ganho médio é mais elevado no quintil mais rico (Q5: 274€) e mais reduzido (em mais do dobro) no quintil mais pobre (Q1: 128€). Em peso relativo, a poupança representa 18,2% da despesa em medicamentos no Q5, contra apenas 9,9% no Q1.

A explicação está no padrão de despesa: as despesas muito elevadas com medicamentos são mais frequentes entre agregados de maior rendimento, sendo a percentagem que ultrapassa os limites sistematicamente mais elevada nos quintis superiores, em particular no Q5. Com efeito, 36,8% dos agregados do Q5 ultrapassam o teto de 250€, contra 23,4% no Q1. No mesmo sentido, a despesa média anual em medicamentos é de 677€ no Q5 contra 493€ no Q1.

Este padrão é, em parte, sintoma de um problema mais profundo. Parte do menor benefício captado pelos quintis inferiores reflete necessidades não satisfeitas: em 2023, mais de 40% dos indivíduos no escalão socioeconómico mais desfavorecido reportou não ter adquirido toda a medicação necessária, contra apenas 1% nos mais favorecidos. Ou seja, quem mais precisa é também quem menos capta o benefício, precisamente por já estar a prescindir de medicação por razões financeiras.

Importa ainda sublinhar o carácter de “seguro” da medida: considerando todos os agregados, o ganho médio é de 176€ por ano, mas entre os que efetivamente ultrapassam o limite sobe para 622€. A política atua, portanto, sobretudo como mecanismo de proteção contra despesas elevadas, mais do que como benefício generalizado.

A recomendação: um teto de 250€ focalizado nos dois quintis mais pobres

Com base nesta evidência, o relatório aponta um caminho concreto e implementável a curto prazo: recomenda-se a adoção de um teto fixo de 250€ focalizado nos quintis Q1 e Q2, implementável com informação administrativa já disponível. Um mecanismo proporcional ao rendimento, semelhante ao modelo alemão, fica como extensão futura, requerendo o cruzamento de dados administrativos entre a Autoridade Tributária, a SPMS e o INFARMED. Os aspetos jurídicos da proposta não foram analisados, e será relevante encontrar a forma de a concretizar, o que deverá ser feito por especialistas no enquadramento formal e sua modificação.

O estudo enquadra esta proposta na experiência europeia, onde vários países já aplicam tetos deste tipo: os Países Baixos limitam os copagamentos de medicamentos a 250€ por ano, a Suécia a cerca de 330-350€, a Irlanda a 80€ por mês por agregado e a Alemanha a 2% do rendimento bruto anual do agregado, reduzido a 1% no caso de doenças crónicas graves.

‘Este trabalho demonstra que é tecnicamente viável e analiticamente sustentável avançar com um mecanismo de proteção financeira contra despesas elevadas em medicamentos em Portugal. O seu desenho concreto requer escolhas explícitas quanto ao equilíbrio entre custo, abrangência e progressividade. Os resultados obtidos fornecem uma primeira base quantitativa para essa discussão de política pública.

As entidades públicas que dispõem da informação necessária e suficiente para replicar e detalhar com maior precisão as implicações financeiras deste tipo de medidas, nomeadamente a Autoridade Tributária, a SPMS e o INFARMED, poderão certamente apoiar o processo de decisão pública a tempo de o próximo orçamento do Estado incluir opções concretas de proteção da população portuguesa neste aspeto específico’, concluem os investigadores.

Notas Informativas: Observatório da Despesa em Saúde:

Tetos de Despesa em Medicamentos: Quanto Custa Proteger as Famílias? é a décima segunda nota da série Notas Informativas: Observatório da Despesa em Saúde (elaboradas no âmbito da Cátedra BPI | Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde, atribuída a Pedro Pita Barros, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE) que pretende divulgar análises sintéticas relativamente a temáticas atuais sobre o setor da saúde.

Sobre a Iniciativa para a Equidade Social:

Iniciativa para a Equidade Social é uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI, e a Nova SBE, que visa impulsionar o setor social em Portugal com uma visão de longo prazo. Traçando um retrato do setor social em Portugal e desenvolvendo programas de investigação e capacitação para apoiar organizações sociais, a iniciativa envolve oito projetos e duas cátedras.

Sobre a Cátedra Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde:

Parte da Iniciativa para a Equidade Social BPI | Fundação “la Caixa” a cátedra em Economia da Saúde foi atribuída ao Professor Pedro Pita Barros e tem como objetivo promover a investigação sobre o sector da saúde, bem como o conhecimento e discussão da sociedade portuguesa quanto a tendências, desafios e políticas do setor da saúde. Desenvolve investigação para analisar novas tendências e desafios no setor da saúde, através de medições de impacto, estudos e análises em temas como Acesso aos Serviços de Saúde, Recursos Humanos e Envelhecimento da População.

Sobre a Fundação ”la Caixa”

Fundação ”la Caixa” iniciou em 2018 a sua implantação em Portugal, consequência da entrada do BPI no grupo CaixaBank. Em 2026, destina 56 milhões de euros a projetos sociais, de investigação, educativos e de divulgação cultural e científica.

Sobre a Nova SBE:

A Nova SBE é a mais prestigiada business school em Portugal e uma das principais business schools da Europa. É a faculdade de ciências económicas, financeiras e de gestão da Universidade NOVA de Lisboa. O atual Diretor é o Prof. Pedro Oliveira (PhD, University of North Carolina at Chapel Hill). A Nova SBE é membro do CEMS desde dezembro de 2007 e tem atribuição Triple Crown em todo o mundo, o que implica a acreditação pela EQUIS, AMBA e AACSB. Foi a primeira business school portuguesa a adquirir acreditações internacionais e reconhecimento de renome mundial no ensino superior. A visão internacional da Nova SBE também se reflete na adoção do inglês como o principal idioma de ensino. A grande maioria dos cursos de licenciatura e todos os programas de mestrado, MBA e PhD são lecionados em inglês.