European Grief Conference reúne no Porto mais de 400 especialistas para discutir os novos desafios da perda num mundo marcado pela incerteza.
Uma morte em contexto de guerra, a perda associada a uma migração forçada, uma catástrofe natural ou até a possibilidade de continuar a interagir digitalmente com alguém que morreu estão a colocar novas questões sobre a forma como vivemos e integramos o luto. Estes são alguns dos desafios em debate na European Grief Conference (EGC 2026), que começa quarta-feira, 9 de setembro, no Porto, reunindo mais de 400 investigadores, psicólogos, profissionais de saúde e académicos.
Com o tema “Bereavement, Grief and Loss: Responding Collaboratively to Local and Global Challenges”, a terceira edição da conferência centra-se no luto num contexto de incerteza global e nas perdas coletivas cada vez mais frequentes e complexas. É a primeira vez que o encontro se realiza em Portugal, depois de Copenhaga, em 2022, e Dublin, em 2024.
“Vivemos numa era marcada por perdas coletivas cada vez mais frequentes e complexas, pelo que é fundamental adotarmos novas abordagens ao luto para que este tenha um lugar próprio sem pressas e julgamentos”, explica Daniela Nogueira, psicóloga clínica, membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções e diretora da Comissão Organizadora Local da EGC 2026.
Quando a perda acontece num mundo instável
O luto pode assumir uma complexidade acrescida quando a morte acontece num contexto de crise. Para além da perda de uma pessoa, podem existir outras ruturas: a perda da casa, da comunidade, da segurança, das referências culturais ou do próprio projeto de vida.
É também neste contexto que surge o luto migratório, um dos temas específicos da EGC 2026. A conferência terá um simpósio dedicado a esta realidade, que continua pouco estruturada em Portugal, procurando chamar a atenção para as necessidades de pessoas que chegam ao país depois de experiências de perda e trauma associadas à migração.
As catástrofes naturais e crises humanitárias serão igualmente discutidas, num momento em que terramotos, cheias, incêndios, conflitos e outras situações de instabilidade podem gerar perdas individuais e coletivas e colocar novos desafios às respostas existentes.
E quando a tecnologia mantém uma presença depois da morte?
Entre os temas mais recentes está o impacto da inteligência artificial nos processos de luto. Recriações digitais e avatares de pessoas falecidas estão a criar novas formas de relação com quem morreu e levantam questões éticas, psicológicas e sociais para as quais a investigação ainda não tem respostas definitivas.
A tecnologia pode, assim, alterar uma das características fundamentais da perda: a ausência física e a impossibilidade de voltar a contactar com a pessoa que morreu. A EGC pretende discutir este novo território com diferentes áreas científicas, sem antecipar respostas onde a investigação ainda está a dar os primeiros passos.
Do apoio comunitário à intervenção especializada
Apesar da crescente complexidade dos contextos de perda, a resposta ao luto não passa necessariamente pela intervenção clínica. A EGC segue um modelo de saúde pública do luto, com diferentes níveis de intervenção, desde a literacia e sensibilização da população e o apoio comunitário até ao acompanhamento estruturado e à intervenção clínica especializada.
“Não conseguimos responder ao luto apenas com mais psicólogos. Precisamos de comunidades inteiras mais preparadas para acolher quem sofre”, defende Daniela Nogueira. Para a especialista, reconhecer a diversidade das experiências de perda e criar respostas adequadas aos diferentes contextos é essencial para que o sofrimento possa ser acompanhado sem ser automaticamente transformado numa questão clínica.
European Grief Conference 2026
A European Grief Conference 2026 decorre de 9 a 11 de setembro, na Super Bock Arena – Congress Center, no Porto. O programa inclui sessões plenárias, apresentações científicas e workshops sobre literacia do luto, apoio comunitário, prevenção de fatores de risco, práticas funerárias, arte e processos de perda e intervenções terapêuticas especializadas.
A organização local é da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções (SPTFE) e da Universidade da Maia, em parceria com a Bereavement Network Europe, o Danish National Center for Grief e a Irish Hospice Foundation. A EGC 2026 conta ainda com o apoio institucional do Ministério da Saúde e da Câmara Municipal do Porto.