Ana João Rodrigues, Agostinho Carvalho, Nuno Neves e Miguel Gama vão desenvolver projetos sobre comunicação neuronal, uma infeção fúngica rara, terapias contra um tumor cerebral e implantes de nova geração
Ana João Rodrigues e Agostinho Carvalho, do ICVS – Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde, e Nuno Neves, do Grupo 3B’s da Universidade do Minho, foram distinguidos com uma bolsa “CaixaResearch de Investigação em Saúde 2026”, da Fundação “la Caixa”, cuja cerimónia decorreu ontem em Barcelona, Espanha. Os seus projetos abordam, respetivamente, o papel do zinco na comunicação entre neurónios, uma via de defesa contra uma infeção fúngica rara e um hidrogel para prevenir a recorrência do tumor cerebral.
O projeto de Ana João Rodrigues, “ZINCoding”, recebeu 500 mil euros de financiamento para três anos de pesquisa sobre o zinco libertado por alguns neurónios na comunicação cerebral e na regulação do comportamento. A sua equipa verificou que experiências positivas e negativas alteram proteínas que controlam o zinco numa região cerebral ligada à recompensa. Pretende agora utilizar novos sensores fluorescentes, desenvolvidos com Huiwang Ai (Universidade da Virgínia, EUA), para observar pela primeira vez a libertação deste metal durante o comportamento. Vai ainda investigar possíveis alterações desses sinais num modelo animal de depressão, em colaboração com Jacques Barik, da Université Côte d’Azur (França). Espera-se que o trabalho ajude a explicar a associação entre alterações do zinco e a depressão.
Agostinho Carvalho integra o consórcio “ARMOR”, financiado com 1 milhão de euros, dos quais 210 mil euros se destinam ao ICVS da Escola de Medicina da UMinho. A meta é conceber terapêuticas metabólicas personalizadas contra a mucormicose, uma infeção fúngica rara e frequentemente fatal. Coordenado por Coral Barbas (Universidad San Pablo CEU, Espanha), o projeto reúne também cientistas das universidades de Creta (Grécia), Múrcia (Espanha) e Católica de Leuven (Bélgica). Estudos recentes mostraram que a albumina transporta ácidos gordos que inibem o crescimento do fungo, mas essa ação perde eficácia quando os níveis daquela proteína são baixos, como em doentes com diabetes. No ICVS será criado o primeiro atlas genético da albumina, cujos resultados apoiarão um ensaio clínico de fase II para avaliar, pela primeira vez, a suplementação com esta proteína em doentes hematológicos de alto risco, visando reforçar as defesas contra a infeção e melhorar a sobrevivência.
Já Nuno Neves, diretor do Grupo 3B’s no Instituto I3Bs – Biomateriais, Biodegradáveis e Biomiméticos da UMinho, e a investigadora auxiliar Helena Ferreira integram o projeto “GlioblasThera”, que conta com um milhão de euros e a parceria de Elias El-Habr (Sorbonne Université, França). O objetivo é uma nova abordagem terapêutica contra o glioblastoma, o tumor cerebral primário mais agressivo e com elevado risco de recorrência após cirurgia. A equipa pretende desenvolver um hidrogel injetável, aplicado na cavidade deixada pela remoção do tumor, que atraia e elimine células tumorais residuais através da libertação localizada e controlada de agentes terapêuticos, preservando o tecido cerebral saudável. Serão testadas diferentes formulações, adaptadas às características dos tumores, através de modelos laboratoriais e pré-clínicos, visando reduzir efeitos adversos dos tratamentos e melhorar a longevidade e a qualidade de vida dos pacientes.
O concurso “CaixaResearch de Investigação em Saúde 2026” selecionou 32 projetos entre 800 candidaturas, atribuindo um total de 25.7 milhões de euros a iniciativas de excelência que vão decorrer nos próximos anos em centros científicos, hospitais e universidades, sobretudo em Espanha e Portugal. Três dos sete projetos portugueses eleitos têm o cofinanciamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Na cerimónia de ontem foi ainda distinguido Miguel Gama, do Centro de Engenharia Biológica (CEB) da Escola de Engenharia da UMinho, com uma verba de 150 mil euros do “CaixaImpulse de Inovação em Saúde”. Vai liderar um projeto de implantes de nova geração para osteoartrite e articulações danificadas, num consórcio com as universidades de Aveiro, do Porto e de Trás-os-Montes e Alto Douro. A intenção é desenvolver um implante personalizado, feito de biomaterial biocompatível moldado a laser, que reproduza a estrutura dos tecidos articulares e promova a regeneração simultânea da cartilagem e do osso, orientando as células do próprio organismo. Sendo adaptável a cada doente e produzida em escala a custos controlados, a tecnologia poderá contribuir para reduzir complicações e beneficiar a vida dos doentes.