Hoje é Dia Europeu da Luta Contra o Cancro do Intestino
Técnicas aplicadas podem apoiar a gestão do Serviço Nacional de Saúde
Uma investigação desenvolvida na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) sugere que técnicas de análise de dados podem melhorar os programas de rastreio de cancro do cólon e reto (doença oncológica que afeta o intestino), apoiando a gestão do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
“A deteção atempada de alterações suspeitas na colonoscopia permite não só remeter os casos de cancro para os hospitais de referência, mas também tratar lesões que, sem intervenção, poderiam evoluir para uma doença oncológica”, afirma Hugo Monteiro, investigador da FMUP que coordenou este trabalho.
Aplicado ao rastreio do cancro colorretal no Norte de Portugal, o trabalho analisou o percurso dos utentes desde a inclusão no programa até aos resultados obtidos após encaminhamento para colonoscopia.
Como sublinha o investigador, “não basta contar quantas pessoas fizeram o teste. É necessário perceber onde se acumularam atrasos e em que pontos o percurso precisa de ser melhorado.”
Na investigação, foram estudados mais de sete milhões de eventos registados entre 2018 e 2025, incluindo convites, envio e devolução de testes, resultados laboratoriais, consultas e colonoscopias. Foram enviados mais de 1,1 milhões de kits de teste de rastreio, dos quais mais de 500 mil foram devolvidos para análise, correspondendo a uma participação de aproximadamente 45%. Cerca de 8% dos testes devolvidos tiveram resultado positivo, um valor comparável ao observado em estudos internacionais.
Nas mais de 14 mil colonoscopias registadas nesse conjunto, confirmou-se a deteção de adenomas, lesões precursoras do cancro colorretal, em cerca de 40% dos exames. A identificação destas lesões torna possível a sua remoção, quando indicada, e/ou a orientação dos utentes para vigilância posterior.
“O seguimento de um teste positivo merece tanta atenção como a participação no rastreio. Nos dados estudados, nem sempre foi possível acompanhar todas as etapas até ao fim. Isso não significa necessariamente que os cuidados não tenham sido prestados, mas mostra a importância de melhorar os registos e a ligação entre serviços,” alerta.
Como explica, “o rastreio de cancro colorretal destina-se a pessoas sem sintomas entre os 50 e os 74 anos. Os utentes recebem em casa um kit para recolha de amostra e entregam no centro de saúde para pesquisa de sangue oculto nas fezes. Um resultado positivo não é um diagnóstico de cancro: requer avaliação clínica e encaminhamento para colonoscopia, exame que visualiza o interior do cólon e do reto e permite confirmar ou excluir alterações relevantes”.
Para o investigador, há agora dois desafios decisivos: assegurar financiamento em tempo útil e ter profissionais suficientes em todas as etapas, dos serviços administrativos e laboratoriais aos enfermeiros e médicos. “Não basta aumentar o número de testes enviados; é necessário garantir capacidade para acompanhar as pessoas cujo resultado exige colonoscopia e eventual vigilância”, afirma.
A técnica de análise de dados de saúde utilizada nesta investigação poderá também ser aplicada a outros rastreios, como o do cancro do colo do útero ou do cancro do pulmão. O próximo passo será testar as alterações sugeridas pelos dados e verificar se, na prática, ajudam a reduzir os tempos de espera e a melhorar a resposta aos utentes.
A investigação foi desenvolvida no âmbito do doutoramento de Hugo Monteiro na FMUP, orientado por Carlos Martins e coorientado por Óscar Felgueiras. Contou ainda com a colaboração de Mariana Oliveira, Ricardo Martinho, Fernando Tavares, João Reis e Bárbara Gonçalves, entre outros. Entre os estudos publicados estão trabalhos no Journal of Cancer Policy, sobre os atrasos e a recuperação do rastreio durante a pandemia, e no Journal of Primary Care & Community Health.