“É só comichão”, “andou a esfregar-se no parque”, “faz sempre isso” são frases comuns entre cuidadores de animais de companhia durante a primavera, mas que não devem ser desvalorizadas. Com a chegada do bom tempo, os cães e gatos ficam mais expostos a alergénios como pólen, ácaros, fungos ou picadas de insetos, tornando esta estação especialmente propícia ao aparecimento ou agravamento de reações alérgicas.

A dermatite atópica define-se como uma doença de pele alérgica inflamatória e pruriginosa, com predisposição genética e mais comummente direcionada contra alergénios ambientais. É uma das doenças dermatológicas mais frequentes, sendo o prurido (“comichão”) o principal sinal clínico. Estima-se que entre 10 a 15% dos cães sejam afetados por esta condição, sendo uma das doenças crónicas mais comuns em medicina veterinária1.

Neste contexto, a AniCura alerta que o prurido persistente não deve ser considerado normal. O desafio não está apenas em identificar o sintoma, mas em não o desvalorizar. Mesmo quando surge de forma isolada, pode evoluir para um quadro mais complexo e desconfortável para o animal se não for acompanhado atempadamente.

“Muitas vezes, em consulta, vemos animais que já apresentam lesões porque o prurido foi sendo normalizado ao longo do tempo. Pequenos indícios acabam por ser ignorados até se tornarem mais evidentes e difíceis de controlar”, explica Susana Abreu, médica veterinária do AniCura +ANI+ Hospital Veterinário. 

Determinados fatores podem aumentar a suscetibilidade a alergias cutâneas, como a predisposição genética, a exposição frequente a ambientes com elevada carga de alergénios ou mesmo a presença de outras doenças dermatológicas pré-existentes. Algumas raças apresentam maior vulnerabilidade à dermatite atópica, nomeadamente Bulldog (francês e inglês), Labrador, Boxer, Golden Retriever, Pastor Alemão, Sharpei, Chow-chow, Terriers, Dálmata e Setter. Contudo, pode ocorrer em qualquer raça.

Para além do prurido, existem outros sinais que frequentemente passam despercebidos:

  • Vermelhidão ou inflamação da pele;
  • Queda de pelo em zonas específicas;
  • Feridas ou lesões provocadas pelo ato de coçar, lamber ou esfregar;
  • Otites recorrentes (abanar a cabeça, coçar, inflamação ou dor no ouvido).

As consequências destas reações estendem-se muito para além da pele. A irritação constante interfere diretamente no comportamento e no equilíbrio emocional do animal, podendo gerar stress e comprometer seriamente a sua qualidade de vida. O autotraumatismo, em consequência do prurido, geralmente resulta em lesões cutâneas secundárias como por exemplo alopécia (queda de pelo), crostas, hiperpigmentação (pele mais escura) e liquenificação (pele mais espessada), sendo comuns as infeções de pele secundárias por bactérias e/ou fungos. Por estes motivos, uma abordagem precoce e adequada é fundamental.

Neste cenário, o papel do cuidador é essencial. A observação atenta de alterações na pele ou no comportamento do animal, como o aumento da frequência com que se coça, pode fazer a diferença na deteção precoce de um problema alérgico e na sua gestão eficaz. Quando não são acompanhados, estas situações podem tornar-se crónicas, agravando o bem-estar do animal e aumentando a complexidade do tratamento.

Perante sinais persistentes, a recomendação passa por procurar aconselhamento médico veterinário, permitindo um diagnóstico rigoroso e a definição de um plano de tratamento ajustado a cada caso.

Referências

  1. Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC). (s.d.). Será o cão o melhor amigo de um atópico? https://www.spaic.pt/client_files/rpia_artigos/sera-o-cao-o-melhor-amigo-de-um-atopico-.pdf