O Núcleo de Estudos de Gestão em Saúde (NEGesS) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) vai realizar, a 17 de novembro, o webinar “A Medicina Interna como pilar na liderança da gestão em Saúde”, uma iniciativa que pretende colocar os internistas no centro da discussão sobre a gestão das instituições de saúde e incentivar a sua participação em funções de liderança. João Porto, coordenador do NEGesS, defende um maior envolvimento dos médicos nos processos de decisão, sublinhando o contributo que os internistas podem dar para uma gestão hospitalar mais próxima da realidade clínica.

“Desde há vários anos que os médicos têm vindo a ser afastados da gestão em organizações de saúde“, afirma João Porto, considerando fundamental que a classe médica assuma um papel mais ativo nesta área. Embora reconheça que todas as especialidades podem contribuir para a gestão, o coordenador do NEGesS destaca a posição privilegiada da Medicina Interna no contexto hospitalar, uma vez que os internistas conhecem de forma abrangente o funcionamento e a dinâmica dos hospitais. A existência de cada vez mais médicos com competência em Gestão dos Serviços de Saúde pela Ordem dos Médicos constitui, na sua perspetiva, mais um motivo para reforçar a presença médica em cargos de liderança.

A visão global do doente, a capacidade de gerir situações clínicas complexas e a articulação com diferentes especialidades são competências que, segundo João Porto, podem representar uma mais-valia para a gestão hospitalar. Os internistas são “os mais capacitados para a gestão do doente complexo” e aqueles que têm um conhecimento particularmente abrangente da realidade hospitalar, fruto da sua interação com quase todas as especialidades médicas e com várias especialidades cirúrgicas. A atividade em diferentes áreas, desde o internamento e o serviço de urgência às unidades de cuidados intermédios e à consulta externa, permite-lhes desenvolver uma perspetiva transversal, útil na gestão de um serviço, departamento ou mesmo de um hospital.

Apesar destas vantagens, assumir responsabilidades de gestão e liderança implica enfrentar desafios significativos. Para o coordenador do NEGesS, a principal dificuldade reside na escassez de recursos humanos, sobretudo em áreas fundamentais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), como a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar. João Porto considera que este problema não resulta da falta de médicos no país, mas da dificuldade do SNS em reter os especialistas que forma, muitos dos quais optam pelo setor privado ou por modelos de prestação de serviços que oferecem maior flexibilidade de horários e melhores perspetivas de rendimento.

A redução do número de médicos disponíveis coloca os responsáveis clínicos perante a necessidade de assegurar os cuidados de saúde com recursos limitados. Uma realidade que pode comprometer a prestação dos cuidados nas melhores condições e aumentar a sobrecarga dos profissionais, com consequências para o seu bem-estar. Esta escassez de recursos humanos, alerta, contribui para uma maior probabilidade de desânimo e “burnout”, tornando ainda mais exigente a conciliação entre a atividade clínica, a gestão de recursos e a qualidade dos cuidados prestados.

Perante este cenário, João Porto defende mudanças na forma como as instituições de saúde são geridas e como os seus responsáveis são escolhidos. Na sua perspetiva, é necessário que o poder político reconheça as especificidades da gestão em Saúde, que a distinguem de outros setores, como o comércio ou o turismo. “É fundamental que as pessoas que estão no terreno, nomeadamente os internistas, estejam envolvidas na gestão das instituições de saúde”, afirma, apontando como possibilidades a integração nas direções e a participação enquanto consultores. Para concretizar esta mudança, considera indispensável uma transformação de mentalidades por parte de quem toma decisões, acompanhada da disponibilidade e vontade dos próprios internistas para assumirem estas funções.

É neste contexto que surge o webinar de 17 de novembro, cujo principal objetivo é estimular o interesse dos internistas pela gestão e reforçar a sua participação nesta área. João Porto salienta que, para além das competências clínicas adquiridas ao longo da carreira, é cada vez mais importante desenvolver competências não clínicas, em particular na área da gestão. A iniciativa permitirá ouvir e conversar com o Dr. António Oliveira e Silva, médico com reconhecido percurso técnico-científico e clínico, bem como experiência na direção de serviços e na presidência de conselho de administração.

Além de promover a reflexão sobre o papel dos internistas na liderança das instituições de saúde, o NEGesS pretende alargar a participação no Núcleo e incentivar a adesão de novos membros, capazes de trazer ideias e projetos que contribuam para o seu desenvolvimento. O objetivo, explica João Porto, é aumentar a massa crítica e criar oportunidades de participação.

Com esta iniciativa, o NEGesS procura reforçar a importância de aproximar a experiência clínica dos processos de decisão, promovendo uma gestão hospitalar que tenha em conta as necessidades dos doentes, dos profissionais e das próprias instituições.

Inscrições para o webinar – https://www.spmi.pt/webinar-a-medicina-interna-como-pilar-na-lideranca-da-gestao-em-saude/